Josefina
acordou naquele dia e estava contente era véspera de natal. Não parecia que o
ano inteiro tinha sido de tanto sofrimento. Filhos desempregados, marido
aposentado em casa o dia todo “enchendo” o saco, sem pregar um prego em uma
barra de sabão.
E as
contas que não faltavam todos os dias. Luz, mais cara com bandeira vermelha,
água sempre subindo o valor, mesmo com os cortes sem aviso, no fim de semana
quando a roupa estava na máquina de lavar. Ela teve bem cedo que se levantar
para comprar o pão quentinho na padaria quatro quarteirões longe da sua casa. Aliás,
ninguém via um adolescente comprando pão, só gente de cabelos grisalhos.
- Bom
dia, Alfredo, me vê três reais de pão misturado, metade de cada um, carioca e
massa fina.
- Pois
não Josefina, como vai os preparativos para a celebração de logo mais à noite?
- Está
tudo bem e da sua família?
- Não
sei não, esse ano a gente não teve muito que comemorar uma crise grande.
- Pensei
que você estava bem, a sua padaria sempre bem movimentada, vi que comprou um
carro novo.
Envergonhado,
Alfredo reluta em aceitar que a sua condição em relação a muitas pessoas está
bem melhor.
- É
tenho isso tudo porque lutei muito, vim do interior e passei fome, sede,
trabalhei na feira.
-
Verdade sua estória é de superação, mas ainda tem gente que está lutando há
muitos anos e não conseguiu nada ainda, você está de parabéns.
Josefina
voltou para casa e fez o café, preparou a mesa, com leite, frutas e foi acordar
seus dois filhos. Afinal era domingo, mas não se podia esquecer que era um dia
mais que especial. Nascimento do menino Jesus Cristo.
Everton
com 15 anos de idade queria apenas dormir, pois havia saído na noite seguinte
para uma festa com os colegas. Denise já tinha até acordado, mas a preguiça a
deixava mais relaxada em cima da cama, no celular, focada nas redes sociais.
Seus 13 anos não a impediam de ser uma usuária curiosa na internet, situação
que irritava sua mãe.
- Meu
filho vai merendar depois você pode voltar a dormir.
- Não
mãe eu estou com sono. Ele se virou na rede e se enrolou mais ainda no lençol e
não deu ouvidos a Josefina.
Foi à
vez agora de ir ao quarto de Denise, que disse que não estava com fome.
Sem
deixar transparecer aos seus filhos e marido seu descontentamento, ela guarda o
pão e as frutas e vai preparar o almoço.
Logo
mais ela teria de sair para fazer as compras de natal. Com nostalgia se lembra
do tempo de sua infância quando não tinha muito dinheiro, mas a mesa seu pai, mãe
e irmãos juntos comiam o peru, o chester, dado pela empresa que seu pai
trabalhava, ou quando não tinha esse tipo de fartura, um frango assado e mais
aquele arroz com ervilha dentro, uma batata palha. Existia a ilusão de que o
papai Noel vinha deixa o presente das crianças comportadas. Era um sonho que se
quebrou no dia que a pequena Josefina flagrou seu pai aos beijos com a vizinha
no quintal da sua casa. Ficou triste com aquilo, mas não contou para sua mãe,
guardou aquela dor consigo por muitos anos. Os seus pais viveram juntos até o
fim da vida e aquela sua vizinha ainda vive por ali por perto da sua casa, uma
mulher solitária sem filhos, sem família.
Josefina
já tinha nesse mês de dezembro feito sua obra de caridade, para com os pobres,
junto a outras amigas da vizinhança tinha arrecadado comida, roupas e feita à
doação para moradores de rua que elas haviam encontrado nas proximidades do seu
bairro.
Homens e
mulheres quase sem dente, com um sorriso meio, amarelo. Um odor forte saia das
roupas sujas dessas pessoas, mas Josefina amava o próximo, mesmo que fosse um
desconhecido.
Seu
marido tinha sido um trabalhador responsável e tinha se aposentado com um belo
salário, por meio de lutas que ele e o sindicato que participava conseguiam em
acordos coletivos, antes é claro de uma reforma trabalhista de Temer acabar com
muitos direitos e precarizar o trabalho no Brasil.
O esposo
de Josefina a criticava por ser caridosa e que deveria era lutar para uma
transformação na sociedade como um todo, não situações pontuais que não mudavam
o contexto da sociedade.
- Mulher
larga essas besteiras, esse povo nem quer trabalhar. Devemos lutar para acabar
com a desigualdade social, mudar o mundo como um todo.
- Eu lá
estou preocupada com mudar o mundo todo, quero mudar pelo menos a estória
dessas pessoas que estão aqui próximas de nós. Se formos esperar para mudar o
mundo talvez essas pessoas nem existam mais, a fome e a sede pode ter acabado
com a vida delas.
- Se nos
organizarmos e acabar com a desigualdade, não precisamos mais de caridade, pois
todos serão iguais perante os outros.
Os dois
ficavam nesse debate por horas isso já durante anos, cada um de certa forma
ajudou ao semelhante,seja diretamente, seja indiretamente, inclusive os patrões
que dão emprego e a oportunidade das pessoas sustentarem suas casas e suas
famílias.
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Antônio
tinha sofrido o ano inteiro com a crise, muitas vezes não tinha nem o dinheiro
da passagem para trabalhar, pedia emprestado a uma pessoa, ou a outra, mas ele
não desistia de ir em busca de ganhar o pão todos os dias para sustentar sua
mulher e sua enteada.
Como
trabalhava com vendas de produtos nos ônibus pela cidade de Fortaleza, ele não
podia transparecer para as pessoas as suas dores particulares. Realmente seus
colegas de trabalho tinham uma espécie de ladainha antes de oferecer um halls,
ice kis, carteira, pipoca. “Pessoal eu
poderia está entrando nesse coletivo para assaltar vocês, mas estou querendo
apenas vender meu material”. “Gente, eu tenho três filhos e pago aluguel, água,
luz e nem almocei ainda hoje, me ajudem”, “Boa tarde, eu tenho uma doença
grave, tenho poucos meses de vida e preciso ganhar dinheiro para comprar esse
medicamento”. “Olá gente vim do interior e não tenho o dinheiro da passagem
para voltar para casa, falta só R$ 25,80 para completar o valor”. Uma
semana depois as mesmas estórias inclusive de pessoas pedindo dinheiro de passagem
para sua casa, mas nunca apuravam esse valor e continuavam lá pedindo.
- Olá
boa tarde! Não quero interromper o silêncio da sua viagem, mas quero lhe
mostrar essa pomada feita com sebo de carneiro, própria para rachaduras nos
pés, com extrato de arnica e mastruz, somente R$ 5,00. Ainda serve para evitar
o cansaço físico nas pernas, costas e articulações.
Era uma
jornada de trabalho que começava cedo, 07h já estava vendendo seus produtos e
quando era seis da tarde estava retornando para casa, com o corpo todo doido.
-
Cheguei amor, como foi seu dia?
A mulher
cansada da rotina de ficar em casa o dia inteiro sem fazer nada e se sentindo
inútil trata o marido com ironia, com ira, sem uma explicação qualquer, nem em
dia de TPM estava.
- Só sei
quando acabar o dia. Trouxe dinheiro para mim?
- Trouxe
para você ir na feira, pagar um papel de luz, uma parte do aluguel, compras
umas verduras e frutas.
- Vixe e
hoje não vamos comer nada em especial?
- O
natal é só amanhã, vou sim comprar um chester para você fazer, pode ser?
-
Negócio de natal, eu quero é dinheiro para fazer meu cabelo.
Apesar
de ter passado boa parte do dia fora de casa oferecendo seus produtos o dia não
foi muito produtivo e tinha ganhando apenas o básico para sobreviver.
- Olha,
Antônio, você tem sorte de me ter, tem tanto homem de olho em mim, que você nem
imagina?
A
vontade de responder algo a mulher vem no nó na garganta, mas ele pensa bem que
não vale à pena, a esposa fala muito, mas é apenas o jeito dela se expressar e existe
a lei Maria da Penha que não permite também ele ser ignorante, e também não é
da sua índole ser ignorante.
Antônio
vivia jogando na Mega Sena e pedindo a Deus para ganhar nem que seja a quina e
dar algo a esposa e a enteada, além de comida, queria comprar roupas, passear,
coisa que não fazia há meses. Até imaginou se alguém lhe desse uma grana, algum
rico, mas isso seria algo improvável.
Sua
mulher ele tinha conhecido, há poucos mais de três anos, ela era pobre, mas
sempre teve espírito de rico. Apesar da situação critica que enfrentava com sua
filha, de um casamento mal sucedido com um homem, mulherengo, farrista e que
depois da separação havia se esquecido da família e faltava tudo, mas a mulher
nunca pensou em fazer besteira. Tinha muita estória de mulher que por
necessidade ia a Beira Mar atrás de um gringo que pagasse suas contas em troca
de sexo, mas ela não era assim.
Gostou de Antônio, pois ele parecia feliz, era
trabalhador e tinha responsabilidade. Gostava de festa, beber, namorar, mas era
gentil, amoroso, até um pouco romântico e isso mexeu com ela. E os dois
namoraram um tempo. Iam a cinema, praia, até festa e junto a pequenina enteada,
era quase um triangulo amoroso, mas não de uma forma maldosa, tinha pelas duas
sentimentos diferentes, uma era a mulher e a outra a filha que não havia tido.
Ele estava só cansado de tantas cobranças e tão
pouco reconhecimento da mulher depois que foram morar juntos, antes eles eram
amigos, conversavam, depois de juntarem as escovas de dente, a mulher virou uma
fera, e um poço de reclamações.
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A sua
vista era linda, o mar estava bem na sua frente e as pessoas pareciam
formiguinhas, no calçadão da Beira Mar, ele não conseguia entender aquelas pessoas
comprando na feirinha, algumas rindo, outras correndo, caminhando, as
bicicletas que passavam, o Trem da Alegria e Trem da Fantasia. E seus
personagens super heróis, lotado de famílias, era alta estação e vendedores de
passeios turísticos, estavam ao monte “importunando” os turistas oferecendo
passeios, fora aqueles vendedores de água, de lanche, de quadros, ensinando
mágicas, era muita gente mesmo.
Antero
queria pular do prédio, seu dinheiro não era suficiente para lhe fazer feliz,
ele já tinha dado a volta ao mundo, vira seus filhos crescerem, se formarem e
irem embora, sua mulher o trocou por um rapaz mais novo e as mulheres que se
aproximavam dele só queriam tirar sua grana.
Homem de
negócios bem sucedido, muito rico, não fora afetado pela crise no Brasil e ele
se perguntava se merecia tal sorte, enquanto a fome assolava vários lares.
Natal, o que é isso? Já se foram os anos em que Antero era feliz, reunia os
familiares, ao entorno de uma arvore de natal e podia na troca de presentes vê
o sorriso dos seus filhos e da sua esposa. Mas a cocaína, a bebida excessiva o
tinha afastado aos poucos dos parentes. Só não foi parar na rua, porque era tão
rico que gastou mais de R$ 5 milhões em pouco mais de um ano, com drogas, mas
ainda tinha outros R$ 756 milhões em ativos.
Ele viu
uma mulher escura, roupas sujas, com meninos nos braços e começou a chorar. Os
prédios estavam iluminados, até uma motocicleta, enfeitada e com o papai Noel
estava passando e as pessoas corriam atrás tirando fotos.
Seu
mundo sempre foi de muito dinheiro, mas pouco afeto. Seus pais construíram um
império e ele foi tratado como um príncipe, pois era filho único, teve
oportunidades que muita gente no Ceará não teve. Viajou o mundo sim, sempre em
aviões de primeira classe.
Quando
queria alguma coisa seu pai mandava buscar em qualquer lugar do mundo, carro,
roupas, até mulheres, seu pai lhe mostrou um cardápio de prostitutas de luxo.
Ele tinha o mundo em suas mãos, mas não conhecia o simples valor de uma amizade
sincera, de um amor verdadeiro, até seu casamento fora arranjado. Seus colegas
de escola eram interesseiros e ele sempre pagava o lanche dos colegas quando
via que eles não estavam com dinheiro em algum dia. Mas a maioria dos seus
colegas era também de famílias ricas.
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Josefina
foi ao Centro da cidade comprar uns presentes para os filhos e o marido, sabia
que não receberia nada em troca, mas queria alegrar seu natal mesmo assim. A
noite iria para a missa. No ônibus (026) Antônio Bezerra/ Messejana, ela foi
seu caminho rumo ao movimento que estava grande das pessoas em busca de comprar
presentes.
Antônio
levou uma mensagem para ler e entregar aos passageiros nessa véspera de natal.
No fim todos se emocionaram. Até as pessoas mais serias dentro do coletivo
sentiram-se mais emotivas e leves.
Por uma
breve coincidência da vida Josefina e Antônio desceram no mesmo lugar na
Avenida Duque de Caxias, no Centro da cidade de Fortaleza. Ele foi também
comprar uma lembrancinha para a esposa e a enteada.
Naquela
manhã Antero tinha se determinado a dar fim ao seu sofrimento e foi ao Centro
comprar veneno e dar uma olhada no movimento daquela tarde de domingo. Ficou
impressionado na alegria daquelas pessoas de aspecto simples. Pouco dinheiro,
mas com as mãos cheias de sacolas.
Estava
com uma mochila cheia de dinheiro, por volta de R$ 100 mil reais, não sabia o
que fazer com tanta grana, para ele era troco, para a maioria das pessoas seria
a garantia de um natal feliz.
Ele
estava angustiado, dor no peito, percebia que ninguém ligava para ele. Pensou
em ir lá no ponto de droga, comprar algo para usar, mas ficou ali sentado nas
cadeiras de madeira da Praça do Ferreira. Ouvia o relato das pessoas, a maioria
se gabava dos feitos que tinha realizado durante a vida, eram os idosos que já
haviam cumprindo em parte sua missão na terra e estavam lá curtindo a
aposentadoria.
A Praça
do Ferreira sempre era esse pronto de encontro e por um instante foi o local
que juntos, Antônio, Josefina e Antero resolveram ficar um pouco sentados vendo
esse fervilhar de transeuntes. Ali se apresentava o homem que quebrava o coco
na cabeça, os cantores peruanos de sempre, os mágicos ensinando pequenos
truques. O Hotel Elcelsior estava enfeitado como de costume para as crianças
que se apresentavam a noite para cantar as músicas natalinas e manter essa
chama viva no coração dos fortalezenses. Tarefa não tão difícil para aquele
público que todas noites estava ali reunidos.
Antero
estava sorrindo das estórias de vida que ouvia. Josefina também prestava
atenção. Antônio estava apenas pensando na mulher em casa e às vezes na família
que estava no interior. Por um instante Antero olhou para Antônio e se viu
nele, num passado remoto, quando tinha a ambição de subir na vida.
- Rapaz,
o que você faz da vida?
- Eu?
Sou vendedor de diversos produtos, principalmente a pomada do sebo do carneiro.
Você conhece?
- Já
ouvi falar, quantas vocês trouxe para vender hoje?
- Estou
com essas três caixas fechadas com 12 pomadas cada.
- Cada
pomada ficar por quanto?
- Cinco
reais.
- Me dá
todas vou levar.
O rapaz
se emociona, pois está meio sem acreditar que o homem vai pagar os R$ 180,00 e
ele já poderá ir para casa ficar com sua família.
- Eu
fico muito agradecido senhor você é um anjo que Deus colocou neste natal na
minha vida.
Ele
recebeu das mãos de Antero um bolo de dinheiro e ficou assustado.
Ei,
senhor esse valor está passando, é só R$ 180,00.
- Fique
com o troco.
- Não
posso.
- Então
dê para alguém não quero.
Antônio
ficou então com o dinheiro e colocou na mochila. Estava com medo de contar o
valor, nem sabia se era algum dinheiro correto. Mas foi ao banheiro de uma loja
e lá ficou espantado quando chegou no final da contagem. R$ 14.534,00. “Meu
Deus”, ele pensou. “Será que isso é verdade não é um sonho?
Antero
saiu andando da praça em direção, a outro local, o calçadão C.Rolim e lá
despejou todo o restante do dinheiro numa lata do lixo. Ele estava menos
deprimido, depois desse passeio pelo centro de Fortaleza, mas teve náuseas ao lembrar-se
da sua própria vida.
Josefina
e dirigiu a Praça dos Leões e no caminho ela encontrou essa mochila e resolveu ver
o que tinha dentro e ficou gelado quando viu os montes de dinheiro em bloquinho
organizados.
Pensou
rapidamente em chamar alguém para pedir ajuda, mas percebeu que todos passavam
apressados e resolveu por impulso pegar a mochila e ir embora pegou um táxi e
chegou a sua casa aos suspiros.
- Homem
abri o portão aqui rápido tenho algo para você ver.
- Que é
mulher já voltou cedo. O que aconteceu?
Ele viu
a mochila e entrou em pânico quando viu o valor. Os filhos estavam na sala e correram
curiosos para ver. Depois da empolgação, os pensamentos, pode ser dinheiro
roubado, do crime, ou falso. Resolveram esconder em baixo da cama do casal e ficaram
ali sem saber o destino dele, depois que passar o Natal eles vêem isso.
Em casa
a mulher de Antônio esperava o marido deitada ao lado da filha vendo um filme.
A vida parecia uma tristeza só, um clima de angustia vinha de dentro dessa residência.
- Olá
gente cheguei.
- Qual a
novidade nisso todos os dias você chega por aqui do mesmo jeito. E ainda chegou
cedo de mãos vazias. Que mochila é essa nas suas costas?
- Me
deixa lhe mostrar.
Pronto a
mulher se transformou e começou a chorar e abraçar o esposo. Eram três da tarde
e o marido levou a mulher ao salão de beleza, para cuidar dos cabelos, das
unhas das mãos e dos pés e a enteada foi junto.
À noite
eles foram jantar fora em um restaurante xique. Foram e voltaram de Uber.
No alto
do prédio ele pensava em pular, mas dessa vez, ele apenas ficou paralisado
contemplando as luzes do natal que estavam em todos os lados e ligou a TV e
estava passando O Conto de Natal de Charles Dickens. Depois de quase duras
horas vendo essa película ele resolveu pular na piscina e nadar a noite toda.
No meio da madrugada a cidade de Fortaleza era banhada por uma chuva e todos
estavam pensativos nos acontecimentos recentes. Antônio, Antero e Josefina.
Publicado originalmente no Recanto das Letras

