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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Bar do Anísio: Casa de Liberdades




                
            Bom dia, Boa tarde, Boa Noite, meu nome é Carlinhos Alves, direto de Fortaleza, com mais uma edição do podcast, O Literato, com resenhas de livros, comentários sobre filmes e séries baseados em literatura escrita, além de entrevistas, de memórias culturais e histórias de músicas e poesias que marcaram todas as épocas.
            No 2° podcast, vamos falar sobre o livro: Bar do Anísio: Casa de Liberdades, da jornalista Isabela Bosi, pela editora UFC, de 2013.

            Todos nós já fomos para algum lugar encontrar amigos, bater papo, deixar o tempo passar, ouvir música, cantar juntos enquanto algum amigo dedilha o violão. Nas minhas memórias estão a Ponte dos Ingleses, aonde a noite eu ia lá com meu irmão, alguns colegas, ou paqueras para ver o chocar das ondas nas pedras e o por do sol. Algumas vezes na infância, acompanhando a minha avó Raimunda, e tios e primos íamos, ao Cais Bar, ouvir chorinho e comer bolinha de peixe.
            Quantos de nós já não fomos para algum bar, ao sair da Universidade, os que eu frequentei nunca me saem da mente, como o Bar do Pedrinho, Bar do Mucambo, Pitombeira, Erivaldo do Frango (Montese), Cantinho Acadêmico, são alguns deles bem movimentados pelos intelectuais e políticos a maioria de esquerda.
            Ai, sempre vinha alguém falando do Bar do Anísio e sem eu me tocar que nem existia mais. Foi quando nesses últimos dias do mês de maio de 2017 chegou a minhas mãos esse livro no formato digital, pois estava disponível para ler no ISSUU. Vinha lendo ele sempre dentro de terminais de ônibus, à noite na volta para casa.
            Pouco mais de 140 páginas, que faz parte do Trabalho de Conclusão do Curso da autora, no Curso de Comunicação Social, da Universidade Federal do Ceará (UFC), um livro reportagem, com orientação de Ronaldo Salgado.
            O Bar do Anísio fechou suas portas em 1985, para dar lugar à modernidade que chegava, onde seria construído o Hotel Scala. Dentro do livro, a fala de Rogaciano Leite sobre esse momento de despedida desse amigo de uma geração: “O Anísio: a história afetiva de uma geração”, “No local, será erguido um novo edifício... um flat moderno de 26 andares e 226 apartamentos...

            A história do livro fala sobre esse Bar do Anísio, que em plena ditadura militar, foi local de encontro de pessoas jovens e questionadoras, como Augusto Borges, Cláudio Pereira, Belchior, Fagner, Fausto Nilo, Sérgio Pinheiro, Ednardo, Rodger de Rogério. Nele foram compostas músicas que marcaram uma época do Pessoal do Ceará, dali surgiu o movimento Massafera, O Bloco de Carnaval Spaia Brasa.
            Anísio Muniz era ascensorista do Hotel Diogo e morava no Parque Araxá, antes tinha morado no Arraial Maria Moura, aquele dos retirantes que vinham do interior e não podiam entrar na cidade. Anísio acabou indo morar na Beira Mar, para ajudar na cura da doença da sua filha Nizia e acabou abrindo uma casa de vendas de comidas que depois virou lugar de venda de cerveja e aos poucos, os universitários foram descobrindo e vindo de vários lugares da capital.
            A autora fala na página 13: “Não sei como era seu jeito de andar, ou de falar. Não posso afirmar com segurança o que o sorriso dele passava... minhas lembranças não incluem essa figura singular da boemia cearense. Ou melhor, não incluíam até eu iniciar esse livro...
            Gilmar de Carvalho que escreve o prefácio do livro diz, que: “O acaso joga um papel importante. Foi assim que nasceu o Bar do Anísio. A família foi para a praia em busca de saúde. O bar nasceu para servir cervejinhas para os amigos. As comidas eram os petiscos que sua esposa fazia. Filhos e filhas atendiam a mesa. Em tempos que antecipavam planejamento, marketing e design, o Bar do Anísio tinha tudo para dar errado, mas deu certo”.

            Isabela Bosi é carioca, 28 anos, em 2017, voltou à cidade maravilhosa para fazer mestrado em Memória Social, antes de ir, em 2013/2014 fez parte do Projeto Pra Você, que deixava cartas em pontos de ônibus, praças e vários locais da cidade de Fortaleza, onde desconhecidos liam e se emocionavam.
            Hoje são poucos os lugares que em Fortaleza o dono do bar é amigo do frequentador e as pessoas se sentem amigas uma das outras, ainda existem, mas são pouquíssimos.

            Agradecimentos a toda audiência deste podcast. Edição e narração Carlinhos Alves, na busca por desbravar o mundo imaginário, às vezes real e duro e às vezes poético e belo, abraço e até uma próxima vez.
           

            

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Belchior, morre o homem nasce o mito

            Era noite de sábado (29) e sozinho sobre o sofá ao som de música clássica, Belchior fazia seu “último concerto musical”, enquanto sua companheira Edna dormia no quarto. Por mais de oito anos sumidos da mídia, o nosso maior músico cearense e um dos melhores compositores brasileiros de todos os tempos, da geração “Pessoal do Ceará”, se foi do jeito que ele gostava, no seu cantinho sem se misturar com o mundo que jazia em trevas.

            Era 19 de janeiro de 2005, “eu” apenas um escritor latino americano, estudante e sem dinheiro no bolso, ao lado do meu amigo cartunista Cival Einstein fomos ao Teatro José de Alencar, lá encontraríamos Aldemir Martins, um dos maiores cartunistas cearenses com destaque nacional e internacional.
Belchior (novo)

            O sonho do meu amigo era entregar uma caricatura feita por ele ao artista plástico cearense. Por ironia a exposição de desenhos era de Belchior, cantor cearense, que faria uma seria de homenagens ao artista.
            Mas antes de começar o show de Belchior, eu e Einstein fomos entregar a caricatura a Aldemir Martins e eu dei uma de “assessor de imprensa” e consegui que um repórter registrasse essa entrega que realmente saiu no jornal Diário do Nordeste.
Ao lado de Cid Gomes

            Depois nos sentamos na primeira fila do Teatro e eu vi um verdadeiro show performático de Belchior a poucos metros de mim, foi com grande emoção que eu vi cada música interpretada com brilhantismo, uma voz que ecoava forte e vibrante na acústica do teatro e sua mexida de mãos e seu corpo.
            Nessa época eu não tinha muito entendido aquele show. Claro já sabia quem era esse homem e sua estrema inteligência, mas só com o tempo que fui ver que estava diante do maior compositor cearense e um homem que não buscava nem fama, nem prestigio.
            Sua morte lamentada por todos neste domingo, em Santa Cruz do Sul (RS), nos fazia pensar como estavam a comentar as más línguas, que ele estava louco, senil, mas não, ele estava vivo e estava compondo músicas e traduzindo livros, mas gostava de uma vida mais tranquila, sem fama.
            Quem esteve com ele nos últimos dias, o radialista Dogival Duarte que cedeu sua casa para ele morar por um ano, disse, que o compositor e cantor cearense estava vivaz: “Ele contava muitas histórias, passávamos a tarde inteira ouvindo as histórias dele. Sempre vivaz, muito antenado no mundo. Ele fazia a alegria de todos”
Com amigos entre eles Ednardo

            Como li na Revista Fórum, uma matéria disse que Belchior não estava doente e não há qualquer indício de violência externa.
            Quantas músicas lindas na voz de Elis Regina, Fagner, entre outros.
            Enquanto alguns buscavam fama ele queria ficar na dele. Era ativo e estava na luta contra um sistema opressor, esteve presente nas Jornadas de Junho, segundo ainda a Revista Fórum.
            Suas músicas tocaram gerações, principalmente as mais jovens que curtiam suas melodias. “Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a tua mão, um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim, que coisa adolescente, James Dean...”. “Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava, sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76...
            Um dos últimos grupos que vi atualizando as suas canções foi o Los Hermanos, mas aqui no Ceará, que vivia uma efervescência cultural com novos artistas, como Lorena Nunes, Os Alfazemas, Luxo da Aldeia, e outros que não em lembro agora.
            Eu sei que nas minhas noites de vinho e músicas em barzinhos pela cidade, ou mesmo ao som do violão do meu tio Cláudio Alves, ou em casa, escutava sempre ou pedia sempre uma música do Belchior.
            A música Tudo Outra Vez, mexia muito comigo, “Há tanto tempo, muito tempo, que estou longe de casa, e nessas ilhas, cheias de distância, o meu blusão de couro, se estragou...”
            Eu morador de Fortaleza e nunca sai do Ceará, mas nas músicas de Belchior viajei pelo mundo. Outra música marcante para mim era Comentários a Respeito de John: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol, porque bate lá o meu coração...”

            Belchior foi um romântico autêntico, um homem que soube dosar a vida sem gasta-la de forma errada. Saiu de cena quando todos queriam mais dele.