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sábado, 28 de junho de 2025

Amor em chamas (conto)

 

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Baba

 

Caído ao chão, com gotículas de uma baba que saia da sua boca. Não conseguia enxergar direito, a vista um pouco embaçada. Tentativa de se levantar, ainda zonzo da bebida que fazia efeito sobre o corpo. Mas tinha que achar os óculos de grau. Sem eles era apenas um homem sem visão. E o Iphone que tinha juntado dinheiro para comprar. Onde se encontrava?



Quase em pé ainda atordoado, tateou o piso do seu apartamento, em busca da sua ferramenta de visualização do mundo. Com muito esforço e quase esmagando a armação recém comprada, pode ver como estava sua residência. Cama, com lençóis, desarrumados, a calça amassada, embolada com a camisa, um balde do lado, onde tinha restos do vômito que veio ao chegar em casa e tentar dormir.

Sebastião seguiu para o banheiro que estava a menos de 4 metros de onde ele se encontrava. Com dor no coração avistou seu aparelho celular misturado com líquidos e alimentos despejados por sobre ele. Pegou o objeto e viu que estava desligado e com pedaços de comida por dentro atrapalhando a câmera.

Tentou limpar o que podia e colocou para carregar. Aos poucos o alívio veio, pois o seu telefone ainda estava com as funções funcionando, mas as fotos ainda estavam saindo meio ruins, devidos aos dejetos que tinha ultrapassado a película de proteção. Fazer o que, era torcer que durante o dia, mudasse tudo e voltasse ao normal. O homem não era apegado à bem matérias, porém ele teve um sacrifício imenso de comprar o celular da moda e queria usufruir de suas funcionalidades.

Era segunda-feira, 10h30 da manhã. Mesmo ainda se sentindo mal, pela ressaca moral e sem saber como tinha chegado em casa, desceu as escadas do seu prédio e seguiu em busca de um lugar para tomar um caldo. De novo ele tinha bebido muito na noite passada. Sempre dizia que ia se controlar. Apreciar o barzinho sem arrependimentos depois. Ele tinha ido ao lugar de sempre, uma boate underground, com Dj tocando músicas dos anos 80.

Bastião era muito na dele, chegava nos lugares e pedia sua bebida e ficava tranquilo vendo o movimento das pessoas. Paquerava uma ou outra mulher que ele achava bonita. Mas não chegava em ninguém, pelo menos no começo da balada. Quando já tinha consumido muito álcool, fazia amizades, contava estórias, chegava nas gatas e tudo. Prometia coisas que bom não ousaria dizer.



Mas o que mexia mais com ele, era se sentir importante para alguém. Não tinha estilo conquistador. Era muito romântico. Alguns diriam que ele era ‘emocionado’ é o termo que se usava ultimamente para dizer algo sobre alguém que se importava.

Mas ele não ligava, naquela manhã ao conferir os jogos da Loteria descobriu que tinha tirado a sorte grande. Agora era a hora de testar suas teorias, sobre amor e riqueza. Sempre achou por ser um homem ‘liso’ e feio as mulheres jamais se aproximariam dele. Não era adepto de Nofap, nem da cultura RedPill, nem seguidor de coach de pegação. Mas ele sentia no seu dia a dia a rejeição de algumas mulheres, que ele achava jovem e bonita. Elas se interessavam por ele muitas vezes, a comunicação via app de relacionamentos fluía bem.

A mágica acontecia na hora de marcar os encontros. Perguntavam sobre emprego, sobre carro. Nesse instante, os matchs se desfaziam e elas desapareciam. Mas agora seria diferente, segundo ele acreditava. Com um prêmio bastante generoso no bolso, era hora de refazer os passos. Começou indo ao médico fazer uma bateria de exames para ver como andava a saúde. Detectou uma serie de alterações. Triglicerídeos e colesterol altos. Resolveu deixar a bebida de lado, entrou para academia, queria ficar no shappe.   

Muitos suplementos alimentares. Investiu em ações, criptomoedas e imóveis. Virou um solteiro cobiçado para as novinhas e coroas. Suas redes sociais eram entupidas de gente buscando se aproximar dele. A seca braba de antes já não existia. Essa mudança de patamar provava um pouco a sua teoria, de que ‘só valemos o que temos’.

E assim ele ficou pegando geral. Não queria nada sério com ninguém. Sem perceber ele virou algo que tanto criticava. Não olhava o ser da pessoa, a essência interior, o que importava era a beleza física. O que um corpo bonito podia oferecer a ele.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

VLADI

 


O pequeno cômodo da quitinete estava empilhado de objetos descartáveis. Ali aproveitavam-se a TV, o notebook, a geladeira e a máquina de lavar. Sem esquecer, é claro, da rede de balanço, lugar preferido de Rennys. Mas os livros, o guarda-roupa por montar, cartas, retratos, lembranças de outras épocas acumulavam espaço e não contribuíam com nada. A velha parede por pintar. A idade já avançada, sem tempo de errar.



Em dois quadros, lado a lado, as duas graduações: história e agronomia. Tudo indicava um excelente emprego, mas as coisas não saíam do lugar, para o nosso protagonista. Ele tinha um problema sério de comunicação e era crítico ferrenho de todas as hipocrisias da sociedade. Pelo menos era assim nos seus pensamentos. Por isso, muita gente o evitava.

Quando ainda era jovem, dava para ludibriar as pessoas. Mesmo um tanto esquisito, conseguia namorar algumas mulheres. Mas as cicatrizes e dificuldades da vida foram o tornando um tanto amargo e distante. Por sorte, o seu lado antissocial lhe ajudou a se concentrar nos estudos e ele ainda passou num concurso público para auxiliar administrativo, da prefeitura de sua cidade.

O dinheiro não era muito, mas pelo menos pagava o aluguel e comia. Já se acercando dos 40 anos, ele percebeu que não tinha mais nada a fazer na face da terra. E pensou várias vezes na morte, uma solução fácil para dar fim à dor que o acometia todos os dias, ao acordar, sem perspectivas de mudanças. Todas às vezes que ele contava um plano para algum amigo, aquilo dava errado, ou as pessoas brincavam com sua cara.

Ele sentia uma raiva dentro de si, sempre estava prestes a explodir e pronto para cometer algum crime. A sua revolta contra o mundo era gigante. Por que as mulheres não o admiravam? Por que ele não conseguia mostrar seu verdadeiro valor à sociedade? O jeito era comer, assistir conteúdo nos streamings e ficar mexendo no celular, em busca de uma conexão que o tirasse da solidão. Já tinha muito ouvido falar em solitude, uma forma de estar só por prazer, para autoconhecimento. Mas Rennys não tinha o que ver dentro de si.

Era um vazio sem fim. Mas um dia, ele estava vendo uma notícia no Instagram, sobre pessoas que haviam encontrado o caminho da felicidade. Mas tinha um preço para isso. Primeiro a viagem de Fortaleza até o interior da Bahia para conhecer o centro religioso. Como ele estaria de férias em breve, resolveu pegar um empréstimo no banco, como servidor, tinha pelo menos essas facilidades. Não sabia como pagaria, mas ele não tinha mais nada a perder. Antes da viagem, ele teve muitos pesadelos recorrentes. Num deles um ser misterioso de capa cinza aparecia e dizia que ele não precisava gastar dinheiro e nem viajar para tão longe, bastaria proferir umas palavras e sua vida mudaria por completo.



Ele ficou assustado nos primeiros dias. Quase não conseguia mais dormir. Porém, a curiosidade de que aquilo fosse real foi mais forte. Então ele chamou o nome: VADLI. E logo acordou. E nada aconteceu. Então voltou a vida normal. Andar pelo calçadão da Beira-Mar. Ir a concertos musicais, peças de teatro, ou cinema. Um desses dias, voltando pelo Centro da Cidade, no calçadão da Praça do Ferreira, avistou um homem de barba branca, cabelos cinza e capa cinza. O senhor o olhou firme e fez um sinal com a mão, chamando-o para sentar-se ao seu lado.

Então o idoso falou:

Vontade, Alimento, Dinheiro, Liberdade e Inocência.

— O que isso quer dizer? — Curioso, Rennys perguntou.

— Levante-se e siga seu caminho — Após falar, o guru saiu.

Mesmo sem entender, Rennys partiu com um colar no pescoço e uma dúvida na cabeça.

Finalmente, as férias começaram. Sem planos algum para viajar, por falta de dinheiro e depois desse encontro com essa figura estranha, o jeito foi ficar recolhido em casa. Sem nada para fazer, tudo parecia pior do que antes. Mas como assim? O que aquela pessoa havia lhe falado em sonhos e depois pessoalmente não era isso. O dia já se findara, um dia perdido. Mas uma batida insistente na porta mudaria isso.

Ele levantou-se da rede um pouco zonzo e foi ver quem era. Para sua surpresa, uma jovem de cabelos loiros, lisos, pele clara, de vestido preto, colado ao corpo, botas pretas largas.

— Boa noite, aqui que mora o Rennys? — Uma voz suave, um olhar penetrante.

— Sou eu, eu fiz algo de errado? — O homem perguntou assobrado.

— Me acompanhe, que você verá.

Os dois saíram. Logo na frente, do prédio, havia uma limusine preta. O motorista de preto, com luvas brancas, os aguardava. Ela parecia uma jovem Inocente. Rennys foi com má Vontade, mas entrou no carro. Lá dentro, uma música cantada por uma voz suave de um homem. A voz de Alessandro Moreschi, conhecido como, ‘O Anjo de Roma’, uma figura castrada na infância devido a uma hérnia e que tinha a voz aguda, por não desenvolver a voz masculina por falta de testosterona. O cantor, soprano, cantava Ave Maria. Mas era uma gravação antiga, de 1904.

Nos dias seguintes, a jovem, o levou a lugares incríveis, onde ele pode conhecer pessoas importantes e sua vida havia mudado. Conseguira um emprego para viajar o mundo, escrevendo sobre as peculiaridades de cada lugar. Largou seu emprego público e começou a ficar com muito Dinheiro.

Agora era um homem com Liberdade. Tinha sempre o que queria, a companhia de belas mulheres, bons amigos. Bom Alimento. Nada lhe faltava nessa sua nova jornada. Passaram-se anos. Há poucos dias de completar 60 anos, Rennys teve um tremendo susto. Quando caminhava pelo Museu de Louvre, reconheceu a figura de uma jovem bonita. Primeiramente, ele ficou incrédulo, não poderia ser a mesma pessoa. Não ficou velha.

— Vim lhe buscar — A voz suave, o alertou.

— Por quê? — O homem achava estranho esse encontro.

— É chegada a hora de pagar a promessa.

— Eu não lembro de promessa alguma.

— Você proferiu as letras: VLADI e isso é o contrato.

Ele entrou na limusine e o homem de vinte anos atrás estava com a mesma aparência, como se tivesse passado apenas, um dia. O caminho foi longo, horas se passaram, até que finalmente chegaram ao destino. Era uma floresta. Eles caminharam um pouco. O coração de Rennys batia mais acelerado. Quando avistaram de longe, o homem da capa cinza. Sentado em um trono. Tinha duas cadeiras viradas de frente para ele.

— Aproxime-se, Rennys, lhe aguardava. Gostou da vida feliz que lhe proporcionei por vinte anos? Eu o queria dar mais tempo, mas tenho outras almas a resgatar.

— Espera aí, almas? — O terror tomou conta do seu rosto.

— Calma, amigo, você gostou dessa jovem?

— Ela é muito bela, mas não envelheceu nada.

— Ela é minha filha e vocês vão se casar agora e darei mais dias para gerar uma vida e depois você me seguirá.

E foi assim, o demônio, celebrou o casamento dos dois. A consumação se deu logo após. Ao acordar no dia seguinte, ele se assustou. A mulher estava com uma barriga de gravidez como se fosse de meses. E dias depois ela teve o menino. Uma criança linda.

A aparência da mulher foi logo mudando e ela foi ficando com cabelos grisalhos. E dias depois tinha a aparência de uma senhora de sessenta anos. Rennys, vieram as lágrimas, porque chegou a amar essa mulher e agora via ela definhar na sua frente.

— Eu lhe amei desde a primeira vez que o vi — disse, em meio a lágrimas, a idosa — Mas esse era o plano, deixar um descendente na terra, para que os planos do meu pai continuem. Ele precisa conquistar mais adeptos e ganhar mais almas. Pois o reino de Deus está próximo e ele tem que lutar para manter a morte e a destruição sobre a terra.

— E o que acontece comigo? — Perguntou já com medo da resposta.

— Você me segue agora — A voz surgiu de uma fresta de uma janela, onde tinha escuridão.

— E se eu não quiser?

— Você morre. Ou você me serve. Se não me servir, eu mato sua família. Essa atual e aquela que você deixou quando partiu.

— Eu era solteiro, não tinha ninguém.

— Deixa eu lhe mostrar — Ele abriu um portal e se pode ver uma mulher, que tinha sido uma namorada de Rennys, há muito tempo — Ela lhe escondeu, esse filho. E tem outras, que você verá. Você fez muitos filhos e nenhuma mulher o quis contar, pois você não tinha dinheiro. E eu lhe dei tudo.

— E agora quer tomar. Não é justo.

— Não existe justiça. O mundo é uma hipocrisia. Mas elas não vão passar fome e nem seus filhos, eu prometo.

E Rennys teve que ser um servo do maligno e um senhor de várias guerras pelo mundo. Divisões, pestes, doenças. Tudo porque um dia ele não estava satisfeito com sua vida, simples e queria viver algo diferente. Mas o plano do universo para ele era outro. Sabendo disso, o demônio se usou de suas fraquezas e barganhou sua alma, que queria Vontade, Alimento, Dinheiro, Liberdade e Inocência.

O que lhe restou foi um Deus, das trevas. Lúcifer.


 

domingo, 8 de junho de 2025

Vida indesejada

 Os dentes afiados saíram de uma boca carnuda, ela precisou se olhar no espelho do banheiro, enquanto ajeitava a maquiagem, para ter certeza, de que aquilo estava mesmo acontecendo. Num dos vasos sanitários, um corpo negro, com o pescoço se derramando em sangue.



O som lá fora, num palco, uma banda gótica, em meio a fumaça, fazia a apresentação. O público se espremia, alguns ainda conseguiam sacudir o corpo em uma dança psicodélica. Billie ainda se olhava chocada. Mas teve que se recompor e fechou a porta de um dos assentos sanitários para não perceberem ainda, o que tinha ocorrido e ligarem sua pessoa, ao crime.

Billie tinha 32 anos, cabelos lisos, olhos castanhos escuros, uma silhueta proporcional a sua altura. Estava de calça preta, camisa branca com o nome da sua banda favorita: Crypta. Uma banda de death metal, de São Paulo composta só por mulheres. Mas era ouvida em vários lugares do Brasil. Inclusive em Fortaleza. Por cima da camisa, uma jaqueta preta.

O estilo era bonito, apesar do calor da cidade nordestina. Logo a garota voltou ao balcão, onde se encontravam suas amigas e pediu uma cerveja.

— Billie, você demorou. Encontrou algum crush? — Perguntou Tablita.

— Pois você acertou. Eu não me contive — Ela falou, mas seu pensamento só estava conectado a cena do banheiro.

O som da banda cearense Plastique Noir mexia com as pessoas de uma forma diferente. Alguns se beijavam, outros se mexiam, outros apenas ficavam sentados na mesa bebendo e conversando. Snake Bar, um espaço do rock, no bairro Benfica. Lugar para bandas autorais e covers.

  Joel era daqueles caras esquisitos, meio incel. Seus 25 anos, ainda sem tirar a virgindade, lhe tornava uma pessoa motivo de bullyings na escola. Eram recorrentes os momentos que os mais espertinhos tiravam brincadeira com ele. E agora que fazia faculdade de filosofia, a sua consciência do mundo, lhe tornava mais sombrio e triste. Mas o bar de rock lhe fazia pertencer a uma comunidade. Às vezes parecia que nem nesse mundo diferente era aceito.

Mas naquela noite sua sorte parecia ter mudado. Ou melhor, seu destino estava se encaminhando para uma nova realidade. Nunca a Billie tinha o olhado, como ele gostaria. Sempre ele nutria aquele amor platônico e não tinha coragem de dizer nada. Ficava stalkeando as redes sociais da mulher, mas sem nunca demonstrar que estava interessado.

Como Billie estava diferente, seu sangue fervia de uma maneira completamente nova, suas percepções de mundo também haviam se alterado. Agora, era uma vampira. Como isso fora acontecer? Ele não entendia. Mas foram tantos porres, tantas noites capotadas, na cama de uma mulher, de homens, de uma orgia.

Era responsável, trabalhava como bioquímica, numa empresa de produtos aromáticos. Mas não perdia um fim de semana, para sair da rotina. Isso de virar uma farrista se deu, quando seu pai saiu de casa há sete anos, deixando sua mãe com depressão, até ela ter um ato extremo. Como era filha única, vendeu a casa e comprou um apartamento e foi morar sozinha. Não se arrependeu. Tinha uma profissão, tinha herdado alguns bens e dor dentro de si, com os acontecimentos.

As lembranças da infância na Serra da Meruoca, no frio, na casa dos seus avós, era algo sempre a lhe deixar chorosa. A saudade de um tempo que nunca mais voltaria a se realizar. Todos de importância para ela tinham morrido. Chegou a morar com um rapaz, filhinho de papai, mas ele passava o dia jogando vídeo game e fumando um baseado e só tinha de bom o sexo. Era pouco para Billie uma mulher inteligente, cheia de esperanças de expandir seus conhecimentos cada vez mais.

O show estava terminando, a casa começava a ficar dispersa e poucas pessoas continuavam ao som ambiente. Numa mesa sozinho, Joel bebia seu whisky e se espantou quando se aproximou Billie.

— Você vai ficar aí parado? Não vai puxar a cadeira para me sentar? — Com um olhar penetrante ela ordenou algo irrecusável a um solitário.

— Você vai bem? — Com a voz tremula, ele buscou dizer algo.

— Eu sei que você sempre me olhou. Desculpa nunca reparar nisso. Mas eu sempre estava agitada, fugindo de mim mesma.

— Sei, tudo bem, que bom está aqui.

— Tudo bem, nada. Você é muito passivo. Deveria se revoltar e mostrar ao mundo o que você é capaz.

— Não gosto de ser violento. Estou bem assim. Pelo menos sei meu lugar.

— Não digo fazer mal aos outros. Mas sim, se portar como um homem, com postura de ação.

— O que você me sugere?

— Me puxe para perto de você e me beije.

Nem ela imaginava, como isso seria algo libertador para ele. Joel, com a mão direita, pegou a mão de Billie, depois com a outra mão, segurou seu rosto e puxou para perto do seu. Agora eles se olhavam, a uma pequena distância. Ela o farejava, sentia o frescor do seu sangue, mas não podia fazer nada ali. Já tinha se livrado de um corpo, que estava largado na escuridão do quintal e só o veriam, algum dia quando fossem lá, ou quando o cheiro se tornasse insuportável.

Ela se deixou beijar. Ele começou vagarosamente. Depois foi se soltando com sua língua, dentro da boca dela. E algo aconteceu. Os corpos se conectaram. Billie ficou transtornada com aquela paixão surgida, que em breve viraria seu alimento. Suas amigas ficaram olhando com pavor. Como ela ficaria com aquele homem tão estranho?

Na saída ela pegou seu carro e disse que daria carona para Joel. No caminho até sua casa, seu olhar era diretamente no pescoço dele. Ele sorria com satisfação. Nunca tinha beijado ninguém até aquele momento. O mundo havia se aberto na sua frente. Existia uma felicidade no seu ser. Billie o convidou para seu apartamento. Joel não queria ir, pois tinha medo de quebrar aquele encanto, mas acabou cedendo, depois de outro longo beijo, que mexeu com várias partes do seu corpo.

Morar no 11.º andar de um apartamento no Meireles, de frente ao mar, era um dos privilégios, dessa jovem. Mas como se acostumar a morar numa vista tão bonita, se sua condição atual mudara e o sol era um terror para sua pele. Há uns três meses, ela fazia sua caminhada matinal, pelo calçadão da Beira Mar, quando começou a ser sentir uma coceira por todo o corpo. Correu para casa, tomou um banho e se trancou no quarto. Quando teve o alívio, se arrumou e foi trabalhar. Seu carro tinha vidro fume. Então ela estava protegida dos perigos da luz.

E durante os três meses, a fome e a sede eram intensos. O calor era angustiante. Ela foi ao médico. Fez uma bateria de exames e nada foi visto como anormal. Apenas duas marcas no lado direito do pescoço. Com o passar dos dias, ela se acostumou com seu novo estado. Só não sabia o que era, quando teve um surto e atacou uns gatos de rua, que ficavam vagando pelo estacionamento. Não tinha ninguém naquela hora por perto, para sua sorte. Sentiu um alívio, ao tomar aquele sangue. Mas o que era aquilo? Não podia conversar com ninguém sobre o assunto.

Teve que se livrar dos corpos dos felinos. Chorou ao chegar ao apartamento. Ela gostava muito de animais, não entendia. Mas sabia que o sangue era algo que de agora em diante faria parte da sua dieta. Não seria louca de atacar humanos. Poderia ser perigoso. Alguém descobriria.

Ficou cada vez mais reclusa. Às vezes recebia os amigos e amigas em casa, para ouvir música e beberem. Mas quando ela percebia que poderia perder o controle, mandava eles irem para casa. Desligava o som. Alguns ficavam sem entender a súbita mudança assim.

Quantas vezes no trabalho olhava ao pescoço dos colegas, com vontade de avançar sobre eles, mas se aguentava. Não poderia dizer o mesmo, quando via o gato de rua. Fazia-se de uma pessoa acolhedora e começou uma rotina de pegar os felinos soltos pelas ruas da cidade. O pessoal via aquilo e achava lindo. Uma mulher sendo caridosa, adotando um animal. Mal sabiam eles, que os bichinhos apenas seriam alimentos para aquela fera.

Era um sangue ruim. O gosto, como se estivesse comendo uma comida ensossa. Mas pelo menos aquilo a deixava aliviada. Os meses foram passando e os gatos de rua foram acabando. Ela já tinha rodado a cidade toda e não sabia mais o que fazer.

Então partiu para os cães vira-latas. No começo o nojo foi grande. Mas sua fome era maior. E tinha que ser saciada. Mas também, depois de um curto espaço de tempo, não existiam mais quase animais assim soltos. E agora? Invadir a casa das pessoas? Entrar escondido em canis? Petshops?

Não, ela estava cansada disso. Passou dias, sem se alimentar de sangue. Foi quando surgiu o convite para a festa no Snake Bar, ‘a noite do gótico’. Ela queria ver gente. Abraçar os amigos, tentar esquecer aquilo. Passou até uns dias lendo sobre o mundo dos vampiros, Conde Drácula e percebeu que o sangue de humanos era o alimento correto e que não necessitaria de tantas vezes, mas de momentos específicos e assim ganhar a vida de volta.

Elza era sua melhor amiga. E foram juntas a festa. Uma casa de show, com paredes pretas, com um espaço para jogar sinuca, um palco, um banheiro feminino e um masculino. Elas se divertiam, dançando e bebendo.

— Billie vou jogar sinuca, vamos — Elza falou isso e levantou-se em direção a sala onde se encontrava a mesa do jogo.

— Vai você, eu vou ficar um pouco aqui — Billie não se sentia bem.

Pensou em ir embora, a caça de animais de rua. Foi se despedir da amiga. Quando chegou ao salão onde se encontrava a sinuca, viu sua amiga jogando sozinha e despertou uma vontade de finalmente se alimentar de sangue humano. Se aproximou de Elza. Mas em vez de morder seu pescoço, a beijou. Foram juntas ao banheiro masculino. Se entregaram a uma paixão avassaladora.

Elza sentia que existia um desejo naquele contato. Mal sabia ela, que o desejo de Billie era outro. Quando foi jogada na parede e virada de costas, teve o cabelo colocado de lado e o pescoço ficou à vista. Os dentes se formaram e ficaram prontos para o ataque. E a sua primeira vítima, humana, estava sem vida. Ela tentou esconder a colega no banheiro, mas as pessoas batiam querendo entrar, então ela usou a abertura que tinha para o quintal e jogou o corpo para fora.

Joel agora estava dentro da casa de Billie. Ela foi tomar um banho, enquanto ele olhava os quadros e mexia no celular. Quando menos percebeu, ela voltou, de vestido vermelho, olhos escuros e salivando.

— Que estranha você está Billie, parece uma vampira. É sua fantasia de Halloween? — Perguntou o rapaz sorrindo.

— Que bom, que você reconheceu, podemos poupar logo nosso tempo — Disse a mulher com um olhar de prazer.

Ela se aproximou dele. Sentou-se ao seu lado no sofá. O abraçou e afiou seus dentes para executar mais uma vítima. Mas foi interrompida, pela risada do jovem.

— Você está mesmo pensando em morder meu pescoço para se alimentar? Pois vai fundo. Quero ver se vai se sentir bem mordendo alguém da sua espécie.

Billie recuou e ficou perplexa com a revelação. Mas pensou rapidamente, que poderia ser um truque e voou em cima de Joel. O rapaz pegou o pescoço dela com as mãos e abriu a boca e mostrou os dentes afiados. Então a vampira se deixou cair no chão e ficou por um tempo o olhando.

Conversaram por horas. Ela fez inúmeras perguntas, trocou algumas informações com ele. E sentiu-se bem mais aliviada ao saber que tinha alguém da sua espécie. Agora poderia ter um parceiro em busca de alimento.

— Primeiro, temos que ter cuidado. A discrição pode garantir a nossa sobrevivência no meio dos humanos — Ele falou com um tom de imposição.

— Sim, isso eu sei, mas quero saber como vamos nos alimentar, sem sermos vistos? Já estou cansada de comer bichos de rua.

— Então era você que estava se alimentando dos bichanos da rua. Você foi uma guerreira. Eu também quando descobri minha condição fiz isso. Mas os pobrezinhos não têm sangue apropriado a nossa alimentação e por isso você estava insaciável.

— Então o que você me sugere? — Seu olhar demonstrava uma certa ansiedade.

— Eu trabalho em um hospital e sempre pego bolsas de sangue escondidas. Mais tarde estarei num plantão, na radiologia e posso conseguir algo para nós.

E assim, eles começaram um romance intenso, movido a noites de sexo e sangue. Logo Billie pode andar novamente na praia durante o dia. Algo de especial a protegia dos perigos do sol. Mas um fato mudaria seus planos. A polícia bateu na sua porta, um dia e a intimou a prestar depoimento, sobre a morte da Elza.

Depois de dois dias daquela festa de Gótico, o dono do bar foi ao estabelecimento com alguns funcionários fazer a faxina e sentiu um cheiro insuportável de carniça. Quando abriu a porta do quintal viu aquela cena de um corpo, com a cara no chão. Ligou para o 190 e o lugar foi isolado. Sem alarde, os investigadores foram convocando um a um, as pessoas que estiveram naquela noite, trabalhando ou se divertindo.

Como Billie chegou com a amiga e saiu com Joel, ela tinha um álibi forte. Mas nos exames necroscópicos, encontraram o DNA de Billie. Não poderiam a prender porque, aquilo não provava um assassinato. E as marcas no pescoço eram parecidas com um ataque animal e não de um humano. Mas ela ficou na mira dos policiais civis.

Um investigador ficou na sua cola. Ela precisou fazer uns ajustes na sua rotina. Não poderia ir ao encontro de Joel em busca de sangue, no estacionamento do hospital. Ficou desesperada. E seu namorado não podia sair com aquelas bolsas de sangue, pois o sistema de segurança detectava qualquer saída de objetos de dentro da unidade hospitalar, então tudo era consumido lá mesmo, as escondidas.

Foi quando Billie teve uma ideia. Aproveitou o fim de semana de folga do trabalho, e partiu para Quixeramobim, onde tinha familiares. Foi de ônibus. A viagem de três horas foi uma tortura. Uma moça se sentou ao seu lado e ficou puxando assunto. E seu faro, detectava o sabor de sangue daquela pobre alma. Com sua força, ela poderia atacar o ônibus todo, no meio da estrada. Não teria testemunhas. Poderia simular um acidente.

Mas se aguentou. Conseguiu chegar no meio do sertão, onde tios moravam. Foi bem recebida na casa dos parentes. Se instalou, deitou-se numa rede e dormiu. Acordou na madrugada, com o som dos grilos e das rãs. Quando todos foram dormir, ela entrou matagal adentro e foi a caça de bichos. Caçote, preá, jumento, galinhas. A trilha de sangue se espalhou e a jovem se saciou momentaneamente.

Pela manhã seu tio voltava aos gritos, para dentro de casa. Seu coração disparou. Ele olhou para sobrinha e disse.

— Minha filha, você tem que ir embora, imediatamente — O senhor falava aquilo com um olhar acusatório, que a fez tremer.

— Vou arrumar minhas coisas.

— Faça isso, eu vou lhe deixar na rodoviária. Não se preocupe, vamos ficar bem.

            — Posso ajudar em alguma coisa? A final a culpa foi minha.

            — Sua culpa? Por quê? Os bichos foram todos mortos, por alguma criatura e quero que você vá embora, me preocupo contigo, não quero mal algum acontecendo com minha sobrinha.

            Ela então ficou aliviada. Mas um pouco triste pelo estado de medo que deixou nos seus parentes. Não queria aquilo, mas era uma criatura do ‘mal’ agora, não poderia fugir ao seu estado natural do momento. Mal ela sabia que um mandado de prisão seria expedido para ela em alguns dias, pelo assassinato de sua amiga Elza.



            Na volta no ônibus, ela vinha muito triste e em estado de profunda depressão. Num sol irritante, mesmo no ar-condicionado do transporte. Quando a senhora vinha puxando conversa com ela, não se aguentou e pulou no pescoço da idosa. Na cadeira ao lado um homem presenciava tudo. Quando ela se virou, o olhar do rapaz ficou arregalado. Os dentes de Billie estavam sujos de sangue, seu olhar era de necessidade. Pulou em cima do homem, que tentou em vão se soltar. Uma criança gritou.

            Pessoas foram para tentar libertar o homem. Mas Billie estava no controle agora e não deixaria mais escapar nada. Os 33 passageiros estavam mortos. Na verdade, ela deixou a criança com vida.  Pegou na mão dela e a tirou do transporte. Voltou e pegou a direção do carro e levou até uma ponte e acelerou para o precipício. Deu tempo sair e ver o veículo batendo nas rochas.

            Sabia que não poderia mais voltar para Fortaleza, agora era sair pelo mundo afora sem rumo. Antes que a prendessem.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Relato de natal


            Josefina acordou naquele dia e estava contente era véspera de natal. Não parecia que o ano inteiro tinha sido de tanto sofrimento. Filhos desempregados, marido aposentado em casa o dia todo “enchendo” o saco, sem pregar um prego em uma barra de sabão.
            E as contas que não faltavam todos os dias. Luz, mais cara com bandeira vermelha, água sempre subindo o valor, mesmo com os cortes sem aviso, no fim de semana quando a roupa estava na máquina de lavar. Ela teve bem cedo que se levantar para comprar o pão quentinho na padaria quatro quarteirões longe da sua casa. Aliás, ninguém via um adolescente comprando pão, só gente de cabelos grisalhos.
            - Bom dia, Alfredo, me vê três reais de pão misturado, metade de cada um, carioca e massa fina.
            - Pois não Josefina, como vai os preparativos para a celebração de logo mais à noite?
            - Está tudo bem e da sua família?
            - Não sei não, esse ano a gente não teve muito que comemorar uma crise grande.
            - Pensei que você estava bem, a sua padaria sempre bem movimentada, vi que comprou um carro novo.
            Envergonhado, Alfredo reluta em aceitar que a sua condição em relação a muitas pessoas está bem melhor.
            - É tenho isso tudo porque lutei muito, vim do interior e passei fome, sede, trabalhei na feira.
            - Verdade sua estória é de superação, mas ainda tem gente que está lutando há muitos anos e não conseguiu nada ainda, você está de parabéns.
            Josefina voltou para casa e fez o café, preparou a mesa, com leite, frutas e foi acordar seus dois filhos. Afinal era domingo, mas não se podia esquecer que era um dia mais que especial. Nascimento do menino Jesus Cristo.
            Everton com 15 anos de idade queria apenas dormir, pois havia saído na noite seguinte para uma festa com os colegas. Denise já tinha até acordado, mas a preguiça a deixava mais relaxada em cima da cama, no celular, focada nas redes sociais. Seus 13 anos não a impediam de ser uma usuária curiosa na internet, situação que irritava sua mãe.
            - Meu filho vai merendar depois você pode voltar a dormir.
            - Não mãe eu estou com sono. Ele se virou na rede e se enrolou mais ainda no lençol e não deu ouvidos a Josefina.
            Foi à vez agora de ir ao quarto de Denise, que disse que não estava com fome.
            Sem deixar transparecer aos seus filhos e marido seu descontentamento, ela guarda o pão e as frutas e vai preparar o almoço.
            Logo mais ela teria de sair para fazer as compras de natal. Com nostalgia se lembra do tempo de sua infância quando não tinha muito dinheiro, mas a mesa seu pai, mãe e irmãos juntos comiam o peru, o chester, dado pela empresa que seu pai trabalhava, ou quando não tinha esse tipo de fartura, um frango assado e mais aquele arroz com ervilha dentro, uma batata palha. Existia a ilusão de que o papai Noel vinha deixa o presente das crianças comportadas. Era um sonho que se quebrou no dia que a pequena Josefina flagrou seu pai aos beijos com a vizinha no quintal da sua casa. Ficou triste com aquilo, mas não contou para sua mãe, guardou aquela dor consigo por muitos anos. Os seus pais viveram juntos até o fim da vida e aquela sua vizinha ainda vive por ali por perto da sua casa, uma mulher solitária sem filhos, sem família.
            Josefina já tinha nesse mês de dezembro feito sua obra de caridade, para com os pobres, junto a outras amigas da vizinhança tinha arrecadado comida, roupas e feita à doação para moradores de rua que elas haviam encontrado nas proximidades do seu bairro.
            Homens e mulheres quase sem dente, com um sorriso meio, amarelo. Um odor forte saia das roupas sujas dessas pessoas, mas Josefina amava o próximo, mesmo que fosse um desconhecido.
            Seu marido tinha sido um trabalhador responsável e tinha se aposentado com um belo salário, por meio de lutas que ele e o sindicato que participava conseguiam em acordos coletivos, antes é claro de uma reforma trabalhista de Temer acabar com muitos direitos e precarizar o trabalho no Brasil.
            O esposo de Josefina a criticava por ser caridosa e que deveria era lutar para uma transformação na sociedade como um todo, não situações pontuais que não mudavam o contexto da sociedade.
            - Mulher larga essas besteiras, esse povo nem quer trabalhar. Devemos lutar para acabar com a desigualdade social, mudar o mundo como um todo.
            - Eu lá estou preocupada com mudar o mundo todo, quero mudar pelo menos a estória dessas pessoas que estão aqui próximas de nós. Se formos esperar para mudar o mundo talvez essas pessoas nem existam mais, a fome e a sede pode ter acabado com a vida delas.
            - Se nos organizarmos e acabar com a desigualdade, não precisamos mais de caridade, pois todos serão iguais perante os outros.
            Os dois ficavam nesse debate por horas isso já durante anos, cada um de certa forma ajudou ao semelhante,seja diretamente, seja indiretamente, inclusive os patrões que dão emprego e a oportunidade das pessoas sustentarem suas casas e suas famílias.
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            Antônio tinha sofrido o ano inteiro com a crise, muitas vezes não tinha nem o dinheiro da passagem para trabalhar, pedia emprestado a uma pessoa, ou a outra, mas ele não desistia de ir em busca de ganhar o pão todos os dias para sustentar sua mulher e sua enteada.
            Como trabalhava com vendas de produtos nos ônibus pela cidade de Fortaleza, ele não podia transparecer para as pessoas as suas dores particulares. Realmente seus colegas de trabalho tinham uma espécie de ladainha antes de oferecer um halls, ice kis, carteira, pipoca. “Pessoal eu poderia está entrando nesse coletivo para assaltar vocês, mas estou querendo apenas vender meu material”. “Gente, eu tenho três filhos e pago aluguel, água, luz e nem almocei ainda hoje, me ajudem”, “Boa tarde, eu tenho uma doença grave, tenho poucos meses de vida e preciso ganhar dinheiro para comprar esse medicamento”. “Olá gente vim do interior e não tenho o dinheiro da passagem para voltar para casa, falta só R$ 25,80 para completar o valor”. Uma semana depois as mesmas estórias inclusive de pessoas pedindo dinheiro de passagem para sua casa, mas nunca apuravam esse valor e continuavam lá pedindo.
            - Olá boa tarde! Não quero interromper o silêncio da sua viagem, mas quero lhe mostrar essa pomada feita com sebo de carneiro, própria para rachaduras nos pés, com extrato de arnica e mastruz, somente R$ 5,00. Ainda serve para evitar o cansaço físico nas pernas, costas e articulações.
            Era uma jornada de trabalho que começava cedo, 07h já estava vendendo seus produtos e quando era seis da tarde estava retornando para casa, com o corpo todo doido.
            - Cheguei amor, como foi seu dia?
            A mulher cansada da rotina de ficar em casa o dia inteiro sem fazer nada e se sentindo inútil trata o marido com ironia, com ira, sem uma explicação qualquer, nem em dia de TPM estava.
            - Só sei quando acabar o dia. Trouxe dinheiro para mim?
            - Trouxe para você ir na feira, pagar um papel de luz, uma parte do aluguel, compras umas verduras e frutas.
            - Vixe e hoje não vamos comer nada em especial?
            - O natal é só amanhã, vou sim comprar um chester para você fazer, pode ser?
            - Negócio de natal, eu quero é dinheiro para fazer meu cabelo.
            Apesar de ter passado boa parte do dia fora de casa oferecendo seus produtos o dia não foi muito produtivo e tinha ganhando apenas o básico para sobreviver.
            - Olha, Antônio, você tem sorte de me ter, tem tanto homem de olho em mim, que você nem imagina?
            A vontade de responder algo a mulher vem no nó na garganta, mas ele pensa bem que não vale à pena, a esposa fala muito, mas é apenas o jeito dela se expressar e existe a lei Maria da Penha que não permite também ele ser ignorante, e também não é da sua índole ser ignorante.
            Antônio vivia jogando na Mega Sena e pedindo a Deus para ganhar nem que seja a quina e dar algo a esposa e a enteada, além de comida, queria comprar roupas, passear, coisa que não fazia há meses. Até imaginou se alguém lhe desse uma grana, algum rico, mas isso seria algo improvável.
                   Sua mulher ele tinha conhecido, há poucos mais de três anos, ela era pobre, mas sempre teve espírito de rico. Apesar da situação critica que enfrentava com sua filha, de um casamento mal sucedido com um homem, mulherengo, farrista e que depois da separação havia se esquecido da família e faltava tudo, mas a mulher nunca pensou em fazer besteira. Tinha muita estória de mulher que por necessidade ia a Beira Mar atrás de um gringo que pagasse suas contas em troca de sexo, mas ela não era assim.
                   Gostou de Antônio, pois ele parecia feliz, era trabalhador e tinha responsabilidade. Gostava de festa, beber, namorar, mas era gentil, amoroso, até um pouco romântico e isso mexeu com ela. E os dois namoraram um tempo. Iam a cinema, praia, até festa e junto a pequenina enteada, era quase um triangulo amoroso, mas não de uma forma maldosa, tinha pelas duas sentimentos diferentes, uma era a mulher e a outra a filha que não havia tido.
                   Ele estava só cansado de tantas cobranças e tão pouco reconhecimento da mulher depois que foram morar juntos, antes eles eram amigos, conversavam, depois de juntarem as escovas de dente, a mulher virou uma fera, e um poço de reclamações.
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            A sua vista era linda, o mar estava bem na sua frente e as pessoas pareciam formiguinhas, no calçadão da Beira Mar, ele não conseguia entender aquelas pessoas comprando na feirinha, algumas rindo, outras correndo, caminhando, as bicicletas que passavam, o Trem da Alegria e Trem da Fantasia. E seus personagens super heróis, lotado de famílias, era alta estação e vendedores de passeios turísticos, estavam ao monte “importunando” os turistas oferecendo passeios, fora aqueles vendedores de água, de lanche, de quadros, ensinando mágicas, era muita gente mesmo.
            Antero queria pular do prédio, seu dinheiro não era suficiente para lhe fazer feliz, ele já tinha dado a volta ao mundo, vira seus filhos crescerem, se formarem e irem embora, sua mulher o trocou por um rapaz mais novo e as mulheres que se aproximavam dele só queriam tirar sua grana.
            Homem de negócios bem sucedido, muito rico, não fora afetado pela crise no Brasil e ele se perguntava se merecia tal sorte, enquanto a fome assolava vários lares. Natal, o que é isso? Já se foram os anos em que Antero era feliz, reunia os familiares, ao entorno de uma arvore de natal e podia na troca de presentes vê o sorriso dos seus filhos e da sua esposa. Mas a cocaína, a bebida excessiva o tinha afastado aos poucos dos parentes. Só não foi parar na rua, porque era tão rico que gastou mais de R$ 5 milhões em pouco mais de um ano, com drogas, mas ainda tinha outros R$ 756 milhões em ativos.
            Ele viu uma mulher escura, roupas sujas, com meninos nos braços e começou a chorar. Os prédios estavam iluminados, até uma motocicleta, enfeitada e com o papai Noel estava passando e as pessoas corriam atrás tirando fotos.
            Seu mundo sempre foi de muito dinheiro, mas pouco afeto. Seus pais construíram um império e ele foi tratado como um príncipe, pois era filho único, teve oportunidades que muita gente no Ceará não teve. Viajou o mundo sim, sempre em aviões de primeira classe.
            Quando queria alguma coisa seu pai mandava buscar em qualquer lugar do mundo, carro, roupas, até mulheres, seu pai lhe mostrou um cardápio de prostitutas de luxo. Ele tinha o mundo em suas mãos, mas não conhecia o simples valor de uma amizade sincera, de um amor verdadeiro, até seu casamento fora arranjado. Seus colegas de escola eram interesseiros e ele sempre pagava o lanche dos colegas quando via que eles não estavam com dinheiro em algum dia. Mas a maioria dos seus colegas era também de famílias ricas.
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            Josefina foi ao Centro da cidade comprar uns presentes para os filhos e o marido, sabia que não receberia nada em troca, mas queria alegrar seu natal mesmo assim. A noite iria para a missa. No ônibus (026) Antônio Bezerra/ Messejana, ela foi seu caminho rumo ao movimento que estava grande das pessoas em busca de comprar presentes.
            Antônio levou uma mensagem para ler e entregar aos passageiros nessa véspera de natal. No fim todos se emocionaram. Até as pessoas mais serias dentro do coletivo sentiram-se mais emotivas e leves.
            Por uma breve coincidência da vida Josefina e Antônio desceram no mesmo lugar na Avenida Duque de Caxias, no Centro da cidade de Fortaleza. Ele foi também comprar uma lembrancinha para a esposa e a enteada.
            Naquela manhã Antero tinha se determinado a dar fim ao seu sofrimento e foi ao Centro comprar veneno e dar uma olhada no movimento daquela tarde de domingo. Ficou impressionado na alegria daquelas pessoas de aspecto simples. Pouco dinheiro, mas com as mãos cheias de sacolas.
            Estava com uma mochila cheia de dinheiro, por volta de R$ 100 mil reais, não sabia o que fazer com tanta grana, para ele era troco, para a maioria das pessoas seria a garantia de um natal feliz.
            Ele estava angustiado, dor no peito, percebia que ninguém ligava para ele. Pensou em ir lá no ponto de droga, comprar algo para usar, mas ficou ali sentado nas cadeiras de madeira da Praça do Ferreira. Ouvia o relato das pessoas, a maioria se gabava dos feitos que tinha realizado durante a vida, eram os idosos que já haviam cumprindo em parte sua missão na terra e estavam lá curtindo a aposentadoria.
            A Praça do Ferreira sempre era esse pronto de encontro e por um instante foi o local que juntos, Antônio, Josefina e Antero resolveram ficar um pouco sentados vendo esse fervilhar de transeuntes. Ali se apresentava o homem que quebrava o coco na cabeça, os cantores peruanos de sempre, os mágicos ensinando pequenos truques. O Hotel Elcelsior estava enfeitado como de costume para as crianças que se apresentavam a noite para cantar as músicas natalinas e manter essa chama viva no coração dos fortalezenses. Tarefa não tão difícil para aquele público que todas noites estava ali reunidos.
            Antero estava sorrindo das estórias de vida que ouvia. Josefina também prestava atenção. Antônio estava apenas pensando na mulher em casa e às vezes na família que estava no interior. Por um instante Antero olhou para Antônio e se viu nele, num passado remoto, quando tinha a ambição de subir na vida.
            - Rapaz, o que você faz da vida?
            - Eu? Sou vendedor de diversos produtos, principalmente a pomada do sebo do carneiro. Você conhece?
            - Já ouvi falar, quantas vocês trouxe para vender hoje?
            - Estou com essas três caixas fechadas com 12 pomadas cada.
            - Cada pomada ficar por quanto?
            - Cinco reais.
            - Me dá todas vou levar.
            O rapaz se emociona, pois está meio sem acreditar que o homem vai pagar os R$ 180,00 e ele já poderá ir para casa ficar com sua família.
            - Eu fico muito agradecido senhor você é um anjo que Deus colocou neste natal na minha vida.
            Ele recebeu das mãos de Antero um bolo de dinheiro e ficou assustado.
            Ei, senhor esse valor está passando, é só R$ 180,00.
            - Fique com o troco.
            - Não posso.
            - Então dê para alguém não quero.
            Antônio ficou então com o dinheiro e colocou na mochila. Estava com medo de contar o valor, nem sabia se era algum dinheiro correto. Mas foi ao banheiro de uma loja e lá ficou espantado quando chegou no final da contagem. R$ 14.534,00. “Meu Deus”, ele pensou. “Será que isso é verdade não é um sonho?
            Antero saiu andando da praça em direção, a outro local, o calçadão C.Rolim e lá despejou todo o restante do dinheiro numa lata do lixo. Ele estava menos deprimido, depois desse passeio pelo centro de Fortaleza, mas teve náuseas ao lembrar-se da sua própria vida.
            Josefina e dirigiu a Praça dos Leões e no caminho ela encontrou essa mochila e resolveu ver o que tinha dentro e ficou gelado quando viu os montes de dinheiro em bloquinho organizados.
            Pensou rapidamente em chamar alguém para pedir ajuda, mas percebeu que todos passavam apressados e resolveu por impulso pegar a mochila e ir embora pegou um táxi e chegou a sua casa aos suspiros.
            - Homem abri o portão aqui rápido tenho algo para você ver.
            - Que é mulher já voltou cedo. O que aconteceu?
            Ele viu a mochila e entrou em pânico quando viu o valor. Os filhos estavam na sala e correram curiosos para ver. Depois da empolgação, os pensamentos, pode ser dinheiro roubado, do crime, ou falso. Resolveram esconder em baixo da cama do casal e ficaram ali sem saber o destino dele, depois que passar o Natal eles vêem isso.
            Em casa a mulher de Antônio esperava o marido deitada ao lado da filha vendo um filme. A vida parecia uma tristeza só, um clima de angustia vinha de dentro dessa residência.
            - Olá gente cheguei.
            - Qual a novidade nisso todos os dias você chega por aqui do mesmo jeito. E ainda chegou cedo de mãos vazias. Que mochila é essa nas suas costas?
            - Me deixa lhe mostrar.
            Pronto a mulher se transformou e começou a chorar e abraçar o esposo. Eram três da tarde e o marido levou a mulher ao salão de beleza, para cuidar dos cabelos, das unhas das mãos e dos pés e a enteada foi junto.
            À noite eles foram jantar fora em um restaurante xique. Foram e voltaram de Uber.

            No alto do prédio ele pensava em pular, mas dessa vez, ele apenas ficou paralisado contemplando as luzes do natal que estavam em todos os lados e ligou a TV e estava passando O Conto de Natal de Charles Dickens. Depois de quase duras horas vendo essa película ele resolveu pular na piscina e nadar a noite toda. No meio da madrugada a cidade de Fortaleza era banhada por uma chuva e todos estavam pensativos nos acontecimentos recentes. Antônio, Antero e Josefina.           

Publicado originalmente no Recanto das Letras 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Sensações perdidas

Oito anos habitando a mesma casa e as situações se repetiam de formas diferentes, porém com o mesmo teor, o terror. A noite era sempre igual. Depois de mais um dia de trabalho André chegava e ia preparar alguma coisa para comer.
     No começo em 2007 quando se mudou para o bairro do Montese sua vida estava em frangalhos. Ele morava com sua irmã e o pai. Eles não tinham os pensamentos iguais sobre o mundo e dessa forma morar junto já não fazia mais nenhum sentido.
     Primeiro sua irmã Iolanda saiu de casa num dia chuvoso e sem nem pensar como a situação ficaria decidiu tentar vida nova em outro bairro de Fortaleza. O pai Jonas não tinha pertences vultosos, mas apenas algumas mudas de roupas que levou em uma mochila jeans rasgada.    
     André teve que se mudar gastando boa parte da economia que tinha na poupança com o pagamento do frete e dos ajudantes. A vila onde ficava sua casa parecia mais o cortiço do Chaves. Cinco casas com portão, porta e janela, exceto a sua que só tinha entrada de ar, pela porta principal, ou por uma grande que dava para cima da sua caixa d água.
     Em alguns meses André se “juntou” e depois de quatro anos se separou, dividindo com a mulher boa parte dos bens moveis que tinha adquirido e agora tinha que começar de novo. Quando morava com Joana, não conseguia diferenciar os barulhos que faziam em cima das telhas, eram apenas os gatos que se mexiam em procura de satisfazer o ciclo natural do perfume do sexo.
     Os meses se sucederam e André fez da sua casa, um local para o prazer. Sempre uma mulher diferente pelo menos umas três vezes na semana ia matar a fome de sexo dele. Era algo que os vizinhos ouviam, mas não comentavam. Afinal, um rapaz solteiro morando sozinho tinha mais era que “comer” carne nova sempre que ela se colocava a disposição.
     Quando a luz apagava e ele ia dormir, os barulhos das portas batendo, ou do vento forte em cima das telhas parecia algo comum. Se não fosse por ser sempre no mesmo horário. Depois das 23h, quando todos nas residências ao lado da sua estavam dormindo e um barulho desgraçado começava. Era um mexido de talheres, de portas e até uma cabra que passava a noite berrando.
     André mesmo esse tempo todo morando no mesmo lugar esquecia noite a após noite do que havia acontecido no dia anterior. As noites mal dormidas refletiam seriamente no seu rendimento no trabalho e o stress era notado pelas pessoas que cruzavam seu caminho diariamente.
     Tinha dias que André se imaginava num hospício e o “mal” entrando nele e fazendo-o ver alucinações. Nos momentos, que ele se masturbava, ou que bebia e fumava misteriosamente as “assombrações” também sumiam e ele dormia como um anjo.
     Quando ele viu que aquela situação tinha haver com seus hábitos nocivos e procurou ajuda espiritual numa Igreja que expulsava demônios sua vida piorou. Nos fins de semana durante as reuniões espirituais sua paz voltava, mas em casa a noite, o mal aparecia.
     Uma vez ele chegou e encontrou luzes acessas computador ligado e achou que tinha um bandido dentro de casa, mas na verdade não era ninguém parecia mesmo algo sobrenatural. No outro dia perto da meia-noite se dirigiu ao banheiro e avistou uma pedra na abertura em cima da caixa d água. Pensou que deveria ser algo que os pedreiros haviam deixado durante o dia no trabalho que fazem nas casas ao lado. Mas quando André voltou do banheiro a pedra não estava mais no mesmo lugar.
     O coração dele disparou, sua mão tremia e a dificuldade de abrir o portão da casa era grande. Pensou em chamar algum vizinho, não era a primeira vez que tinha esse “terror noturno”, mas olhou para cima da telha e não via ninguém. Discou 190 e começou a falar com a atendente e relatar o fato e quando já estava concluído o pedido de socorro viu que aquilo que parecia uma pedra começou a se mexer e na verdade era um pano cor de creme claro que no escuro parecia uma pedra, mas era apenas o medo que deixava o senhor assim aterrorizado.
     Na rua muita gente não gostava de André, do seu jeito simples e da sua maneira educada de falar e sempre puxavam com ele briga sobre qualquer assunto. Bastava ele está parado num lugar e o começavam. Sua vida acabava sempre o empurrando mais para dentro de casa e só saia mesmo para trabalhar e ficava lá em pé cumprindo as horas do dia do seu trabalho sem estar em sintonia com o mundo a sua volta.
     A corda no pescoço, a faca de cozinha, o viaduto, o carro que passava. André não sabia o que fazia ter esses pensamentos de suicídio e morte constantes. Nada para ele era mais interessante. As injustiças pela qual seu país passava lhe davam desgosto. A situação política era grave e André via que estavam transformando a esquerda na America Latina em novos judeus. Uma espécie de fascismo tomava conta da sociedade e parecia que os petistas eram culpados de todo o mal que acontecia.
     André queria mudar de casa e gostava da ideia de dormir sempre aos fins de semana na casa da sua namorada. Lá era tudo iluminado. Até os problemas passavam longe apesar da simplicidade.

Texto original Aqui