Caído
ao chão, com gotículas de uma baba que saia da sua boca. Não conseguia enxergar
direito, a vista um pouco embaçada. Tentativa de se levantar, ainda zonzo da
bebida que fazia efeito sobre o corpo. Mas tinha que achar os óculos de grau.
Sem eles era apenas um homem sem visão. E o Iphone que tinha juntado dinheiro
para comprar. Onde se encontrava?
Quase
em pé ainda atordoado, tateou o piso do seu apartamento, em busca da sua
ferramenta de visualização do mundo. Com muito esforço e quase esmagando a
armação recém comprada, pode ver como estava sua residência. Cama, com lençóis,
desarrumados, a calça amassada, embolada com a camisa, um balde do lado, onde
tinha restos do vômito que veio ao chegar em casa e tentar dormir.
Sebastião
seguiu para o banheiro que estava a menos de 4 metros de onde ele se
encontrava. Com dor no coração avistou seu aparelho celular misturado com
líquidos e alimentos despejados por sobre ele. Pegou o objeto e viu que estava
desligado e com pedaços de comida por dentro atrapalhando a câmera.
Tentou
limpar o que podia e colocou para carregar. Aos poucos o alívio veio, pois o
seu telefone ainda estava com as funções funcionando, mas as fotos ainda
estavam saindo meio ruins, devidos aos dejetos que tinha ultrapassado a
película de proteção. Fazer o que, era torcer que durante o dia, mudasse tudo e
voltasse ao normal. O homem não era apegado à bem matérias, porém ele teve um
sacrifício imenso de comprar o celular da moda e queria usufruir de suas
funcionalidades.
Era
segunda-feira, 10h30 da manhã. Mesmo ainda se sentindo mal, pela ressaca moral
e sem saber como tinha chegado em casa, desceu as escadas do seu prédio e
seguiu em busca de um lugar para tomar um caldo. De novo ele tinha bebido muito
na noite passada. Sempre dizia que ia se controlar. Apreciar o barzinho sem
arrependimentos depois. Ele tinha ido ao lugar de sempre, uma boate
underground, com Dj tocando músicas dos anos 80.
Bastião
era muito na dele, chegava nos lugares e pedia sua bebida e ficava tranquilo
vendo o movimento das pessoas. Paquerava uma ou outra mulher que ele achava
bonita. Mas não chegava em ninguém, pelo menos no começo da balada. Quando já
tinha consumido muito álcool, fazia amizades, contava estórias, chegava nas
gatas e tudo. Prometia coisas que bom não ousaria dizer.
Mas
o que mexia mais com ele, era se sentir importante para alguém. Não tinha
estilo conquistador. Era muito romântico. Alguns diriam que ele era
‘emocionado’ é o termo que se usava ultimamente para dizer algo sobre alguém
que se importava.
Mas
ele não ligava, naquela manhã ao conferir os jogos da Loteria descobriu que
tinha tirado a sorte grande. Agora era a hora de testar suas teorias, sobre
amor e riqueza. Sempre achou por ser um homem ‘liso’ e feio as mulheres jamais
se aproximariam dele. Não era adepto de Nofap, nem da cultura RedPill, nem
seguidor de coach de pegação. Mas ele sentia no seu dia a dia a rejeição de
algumas mulheres, que ele achava jovem e bonita. Elas se interessavam por ele
muitas vezes, a comunicação via app de relacionamentos fluía bem.
A
mágica acontecia na hora de marcar os encontros. Perguntavam sobre emprego,
sobre carro. Nesse instante, os matchs se desfaziam e elas desapareciam. Mas
agora seria diferente, segundo ele acreditava. Com um prêmio bastante generoso
no bolso, era hora de refazer os passos. Começou indo ao médico fazer uma
bateria de exames para ver como andava a saúde. Detectou uma serie de
alterações. Triglicerídeos e colesterol altos. Resolveu deixar a bebida de lado,
entrou para academia, queria ficar no shappe.
Muitos
suplementos alimentares. Investiu em ações, criptomoedas e imóveis. Virou um
solteiro cobiçado para as novinhas e coroas. Suas redes sociais eram entupidas
de gente buscando se aproximar dele. A seca braba de antes já não existia. Essa
mudança de patamar provava um pouco a sua teoria, de que ‘só valemos o que
temos’.
E
assim ele ficou pegando geral. Não queria nada sério com ninguém. Sem perceber
ele virou algo que tanto criticava. Não olhava o ser da pessoa, a essência
interior, o que importava era a beleza física. O que um corpo bonito podia
oferecer a ele.
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