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quarta-feira, 18 de junho de 2025

Baba

 

Caído ao chão, com gotículas de uma baba que saia da sua boca. Não conseguia enxergar direito, a vista um pouco embaçada. Tentativa de se levantar, ainda zonzo da bebida que fazia efeito sobre o corpo. Mas tinha que achar os óculos de grau. Sem eles era apenas um homem sem visão. E o Iphone que tinha juntado dinheiro para comprar. Onde se encontrava?



Quase em pé ainda atordoado, tateou o piso do seu apartamento, em busca da sua ferramenta de visualização do mundo. Com muito esforço e quase esmagando a armação recém comprada, pode ver como estava sua residência. Cama, com lençóis, desarrumados, a calça amassada, embolada com a camisa, um balde do lado, onde tinha restos do vômito que veio ao chegar em casa e tentar dormir.

Sebastião seguiu para o banheiro que estava a menos de 4 metros de onde ele se encontrava. Com dor no coração avistou seu aparelho celular misturado com líquidos e alimentos despejados por sobre ele. Pegou o objeto e viu que estava desligado e com pedaços de comida por dentro atrapalhando a câmera.

Tentou limpar o que podia e colocou para carregar. Aos poucos o alívio veio, pois o seu telefone ainda estava com as funções funcionando, mas as fotos ainda estavam saindo meio ruins, devidos aos dejetos que tinha ultrapassado a película de proteção. Fazer o que, era torcer que durante o dia, mudasse tudo e voltasse ao normal. O homem não era apegado à bem matérias, porém ele teve um sacrifício imenso de comprar o celular da moda e queria usufruir de suas funcionalidades.

Era segunda-feira, 10h30 da manhã. Mesmo ainda se sentindo mal, pela ressaca moral e sem saber como tinha chegado em casa, desceu as escadas do seu prédio e seguiu em busca de um lugar para tomar um caldo. De novo ele tinha bebido muito na noite passada. Sempre dizia que ia se controlar. Apreciar o barzinho sem arrependimentos depois. Ele tinha ido ao lugar de sempre, uma boate underground, com Dj tocando músicas dos anos 80.

Bastião era muito na dele, chegava nos lugares e pedia sua bebida e ficava tranquilo vendo o movimento das pessoas. Paquerava uma ou outra mulher que ele achava bonita. Mas não chegava em ninguém, pelo menos no começo da balada. Quando já tinha consumido muito álcool, fazia amizades, contava estórias, chegava nas gatas e tudo. Prometia coisas que bom não ousaria dizer.



Mas o que mexia mais com ele, era se sentir importante para alguém. Não tinha estilo conquistador. Era muito romântico. Alguns diriam que ele era ‘emocionado’ é o termo que se usava ultimamente para dizer algo sobre alguém que se importava.

Mas ele não ligava, naquela manhã ao conferir os jogos da Loteria descobriu que tinha tirado a sorte grande. Agora era a hora de testar suas teorias, sobre amor e riqueza. Sempre achou por ser um homem ‘liso’ e feio as mulheres jamais se aproximariam dele. Não era adepto de Nofap, nem da cultura RedPill, nem seguidor de coach de pegação. Mas ele sentia no seu dia a dia a rejeição de algumas mulheres, que ele achava jovem e bonita. Elas se interessavam por ele muitas vezes, a comunicação via app de relacionamentos fluía bem.

A mágica acontecia na hora de marcar os encontros. Perguntavam sobre emprego, sobre carro. Nesse instante, os matchs se desfaziam e elas desapareciam. Mas agora seria diferente, segundo ele acreditava. Com um prêmio bastante generoso no bolso, era hora de refazer os passos. Começou indo ao médico fazer uma bateria de exames para ver como andava a saúde. Detectou uma serie de alterações. Triglicerídeos e colesterol altos. Resolveu deixar a bebida de lado, entrou para academia, queria ficar no shappe.   

Muitos suplementos alimentares. Investiu em ações, criptomoedas e imóveis. Virou um solteiro cobiçado para as novinhas e coroas. Suas redes sociais eram entupidas de gente buscando se aproximar dele. A seca braba de antes já não existia. Essa mudança de patamar provava um pouco a sua teoria, de que ‘só valemos o que temos’.

E assim ele ficou pegando geral. Não queria nada sério com ninguém. Sem perceber ele virou algo que tanto criticava. Não olhava o ser da pessoa, a essência interior, o que importava era a beleza física. O que um corpo bonito podia oferecer a ele.

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