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domingo, 8 de junho de 2025

Vida indesejada

 Os dentes afiados saíram de uma boca carnuda, ela precisou se olhar no espelho do banheiro, enquanto ajeitava a maquiagem, para ter certeza, de que aquilo estava mesmo acontecendo. Num dos vasos sanitários, um corpo negro, com o pescoço se derramando em sangue.



O som lá fora, num palco, uma banda gótica, em meio a fumaça, fazia a apresentação. O público se espremia, alguns ainda conseguiam sacudir o corpo em uma dança psicodélica. Billie ainda se olhava chocada. Mas teve que se recompor e fechou a porta de um dos assentos sanitários para não perceberem ainda, o que tinha ocorrido e ligarem sua pessoa, ao crime.

Billie tinha 32 anos, cabelos lisos, olhos castanhos escuros, uma silhueta proporcional a sua altura. Estava de calça preta, camisa branca com o nome da sua banda favorita: Crypta. Uma banda de death metal, de São Paulo composta só por mulheres. Mas era ouvida em vários lugares do Brasil. Inclusive em Fortaleza. Por cima da camisa, uma jaqueta preta.

O estilo era bonito, apesar do calor da cidade nordestina. Logo a garota voltou ao balcão, onde se encontravam suas amigas e pediu uma cerveja.

— Billie, você demorou. Encontrou algum crush? — Perguntou Tablita.

— Pois você acertou. Eu não me contive — Ela falou, mas seu pensamento só estava conectado a cena do banheiro.

O som da banda cearense Plastique Noir mexia com as pessoas de uma forma diferente. Alguns se beijavam, outros se mexiam, outros apenas ficavam sentados na mesa bebendo e conversando. Snake Bar, um espaço do rock, no bairro Benfica. Lugar para bandas autorais e covers.

  Joel era daqueles caras esquisitos, meio incel. Seus 25 anos, ainda sem tirar a virgindade, lhe tornava uma pessoa motivo de bullyings na escola. Eram recorrentes os momentos que os mais espertinhos tiravam brincadeira com ele. E agora que fazia faculdade de filosofia, a sua consciência do mundo, lhe tornava mais sombrio e triste. Mas o bar de rock lhe fazia pertencer a uma comunidade. Às vezes parecia que nem nesse mundo diferente era aceito.

Mas naquela noite sua sorte parecia ter mudado. Ou melhor, seu destino estava se encaminhando para uma nova realidade. Nunca a Billie tinha o olhado, como ele gostaria. Sempre ele nutria aquele amor platônico e não tinha coragem de dizer nada. Ficava stalkeando as redes sociais da mulher, mas sem nunca demonstrar que estava interessado.

Como Billie estava diferente, seu sangue fervia de uma maneira completamente nova, suas percepções de mundo também haviam se alterado. Agora, era uma vampira. Como isso fora acontecer? Ele não entendia. Mas foram tantos porres, tantas noites capotadas, na cama de uma mulher, de homens, de uma orgia.

Era responsável, trabalhava como bioquímica, numa empresa de produtos aromáticos. Mas não perdia um fim de semana, para sair da rotina. Isso de virar uma farrista se deu, quando seu pai saiu de casa há sete anos, deixando sua mãe com depressão, até ela ter um ato extremo. Como era filha única, vendeu a casa e comprou um apartamento e foi morar sozinha. Não se arrependeu. Tinha uma profissão, tinha herdado alguns bens e dor dentro de si, com os acontecimentos.

As lembranças da infância na Serra da Meruoca, no frio, na casa dos seus avós, era algo sempre a lhe deixar chorosa. A saudade de um tempo que nunca mais voltaria a se realizar. Todos de importância para ela tinham morrido. Chegou a morar com um rapaz, filhinho de papai, mas ele passava o dia jogando vídeo game e fumando um baseado e só tinha de bom o sexo. Era pouco para Billie uma mulher inteligente, cheia de esperanças de expandir seus conhecimentos cada vez mais.

O show estava terminando, a casa começava a ficar dispersa e poucas pessoas continuavam ao som ambiente. Numa mesa sozinho, Joel bebia seu whisky e se espantou quando se aproximou Billie.

— Você vai ficar aí parado? Não vai puxar a cadeira para me sentar? — Com um olhar penetrante ela ordenou algo irrecusável a um solitário.

— Você vai bem? — Com a voz tremula, ele buscou dizer algo.

— Eu sei que você sempre me olhou. Desculpa nunca reparar nisso. Mas eu sempre estava agitada, fugindo de mim mesma.

— Sei, tudo bem, que bom está aqui.

— Tudo bem, nada. Você é muito passivo. Deveria se revoltar e mostrar ao mundo o que você é capaz.

— Não gosto de ser violento. Estou bem assim. Pelo menos sei meu lugar.

— Não digo fazer mal aos outros. Mas sim, se portar como um homem, com postura de ação.

— O que você me sugere?

— Me puxe para perto de você e me beije.

Nem ela imaginava, como isso seria algo libertador para ele. Joel, com a mão direita, pegou a mão de Billie, depois com a outra mão, segurou seu rosto e puxou para perto do seu. Agora eles se olhavam, a uma pequena distância. Ela o farejava, sentia o frescor do seu sangue, mas não podia fazer nada ali. Já tinha se livrado de um corpo, que estava largado na escuridão do quintal e só o veriam, algum dia quando fossem lá, ou quando o cheiro se tornasse insuportável.

Ela se deixou beijar. Ele começou vagarosamente. Depois foi se soltando com sua língua, dentro da boca dela. E algo aconteceu. Os corpos se conectaram. Billie ficou transtornada com aquela paixão surgida, que em breve viraria seu alimento. Suas amigas ficaram olhando com pavor. Como ela ficaria com aquele homem tão estranho?

Na saída ela pegou seu carro e disse que daria carona para Joel. No caminho até sua casa, seu olhar era diretamente no pescoço dele. Ele sorria com satisfação. Nunca tinha beijado ninguém até aquele momento. O mundo havia se aberto na sua frente. Existia uma felicidade no seu ser. Billie o convidou para seu apartamento. Joel não queria ir, pois tinha medo de quebrar aquele encanto, mas acabou cedendo, depois de outro longo beijo, que mexeu com várias partes do seu corpo.

Morar no 11.º andar de um apartamento no Meireles, de frente ao mar, era um dos privilégios, dessa jovem. Mas como se acostumar a morar numa vista tão bonita, se sua condição atual mudara e o sol era um terror para sua pele. Há uns três meses, ela fazia sua caminhada matinal, pelo calçadão da Beira Mar, quando começou a ser sentir uma coceira por todo o corpo. Correu para casa, tomou um banho e se trancou no quarto. Quando teve o alívio, se arrumou e foi trabalhar. Seu carro tinha vidro fume. Então ela estava protegida dos perigos da luz.

E durante os três meses, a fome e a sede eram intensos. O calor era angustiante. Ela foi ao médico. Fez uma bateria de exames e nada foi visto como anormal. Apenas duas marcas no lado direito do pescoço. Com o passar dos dias, ela se acostumou com seu novo estado. Só não sabia o que era, quando teve um surto e atacou uns gatos de rua, que ficavam vagando pelo estacionamento. Não tinha ninguém naquela hora por perto, para sua sorte. Sentiu um alívio, ao tomar aquele sangue. Mas o que era aquilo? Não podia conversar com ninguém sobre o assunto.

Teve que se livrar dos corpos dos felinos. Chorou ao chegar ao apartamento. Ela gostava muito de animais, não entendia. Mas sabia que o sangue era algo que de agora em diante faria parte da sua dieta. Não seria louca de atacar humanos. Poderia ser perigoso. Alguém descobriria.

Ficou cada vez mais reclusa. Às vezes recebia os amigos e amigas em casa, para ouvir música e beberem. Mas quando ela percebia que poderia perder o controle, mandava eles irem para casa. Desligava o som. Alguns ficavam sem entender a súbita mudança assim.

Quantas vezes no trabalho olhava ao pescoço dos colegas, com vontade de avançar sobre eles, mas se aguentava. Não poderia dizer o mesmo, quando via o gato de rua. Fazia-se de uma pessoa acolhedora e começou uma rotina de pegar os felinos soltos pelas ruas da cidade. O pessoal via aquilo e achava lindo. Uma mulher sendo caridosa, adotando um animal. Mal sabiam eles, que os bichinhos apenas seriam alimentos para aquela fera.

Era um sangue ruim. O gosto, como se estivesse comendo uma comida ensossa. Mas pelo menos aquilo a deixava aliviada. Os meses foram passando e os gatos de rua foram acabando. Ela já tinha rodado a cidade toda e não sabia mais o que fazer.

Então partiu para os cães vira-latas. No começo o nojo foi grande. Mas sua fome era maior. E tinha que ser saciada. Mas também, depois de um curto espaço de tempo, não existiam mais quase animais assim soltos. E agora? Invadir a casa das pessoas? Entrar escondido em canis? Petshops?

Não, ela estava cansada disso. Passou dias, sem se alimentar de sangue. Foi quando surgiu o convite para a festa no Snake Bar, ‘a noite do gótico’. Ela queria ver gente. Abraçar os amigos, tentar esquecer aquilo. Passou até uns dias lendo sobre o mundo dos vampiros, Conde Drácula e percebeu que o sangue de humanos era o alimento correto e que não necessitaria de tantas vezes, mas de momentos específicos e assim ganhar a vida de volta.

Elza era sua melhor amiga. E foram juntas a festa. Uma casa de show, com paredes pretas, com um espaço para jogar sinuca, um palco, um banheiro feminino e um masculino. Elas se divertiam, dançando e bebendo.

— Billie vou jogar sinuca, vamos — Elza falou isso e levantou-se em direção a sala onde se encontrava a mesa do jogo.

— Vai você, eu vou ficar um pouco aqui — Billie não se sentia bem.

Pensou em ir embora, a caça de animais de rua. Foi se despedir da amiga. Quando chegou ao salão onde se encontrava a sinuca, viu sua amiga jogando sozinha e despertou uma vontade de finalmente se alimentar de sangue humano. Se aproximou de Elza. Mas em vez de morder seu pescoço, a beijou. Foram juntas ao banheiro masculino. Se entregaram a uma paixão avassaladora.

Elza sentia que existia um desejo naquele contato. Mal sabia ela, que o desejo de Billie era outro. Quando foi jogada na parede e virada de costas, teve o cabelo colocado de lado e o pescoço ficou à vista. Os dentes se formaram e ficaram prontos para o ataque. E a sua primeira vítima, humana, estava sem vida. Ela tentou esconder a colega no banheiro, mas as pessoas batiam querendo entrar, então ela usou a abertura que tinha para o quintal e jogou o corpo para fora.

Joel agora estava dentro da casa de Billie. Ela foi tomar um banho, enquanto ele olhava os quadros e mexia no celular. Quando menos percebeu, ela voltou, de vestido vermelho, olhos escuros e salivando.

— Que estranha você está Billie, parece uma vampira. É sua fantasia de Halloween? — Perguntou o rapaz sorrindo.

— Que bom, que você reconheceu, podemos poupar logo nosso tempo — Disse a mulher com um olhar de prazer.

Ela se aproximou dele. Sentou-se ao seu lado no sofá. O abraçou e afiou seus dentes para executar mais uma vítima. Mas foi interrompida, pela risada do jovem.

— Você está mesmo pensando em morder meu pescoço para se alimentar? Pois vai fundo. Quero ver se vai se sentir bem mordendo alguém da sua espécie.

Billie recuou e ficou perplexa com a revelação. Mas pensou rapidamente, que poderia ser um truque e voou em cima de Joel. O rapaz pegou o pescoço dela com as mãos e abriu a boca e mostrou os dentes afiados. Então a vampira se deixou cair no chão e ficou por um tempo o olhando.

Conversaram por horas. Ela fez inúmeras perguntas, trocou algumas informações com ele. E sentiu-se bem mais aliviada ao saber que tinha alguém da sua espécie. Agora poderia ter um parceiro em busca de alimento.

— Primeiro, temos que ter cuidado. A discrição pode garantir a nossa sobrevivência no meio dos humanos — Ele falou com um tom de imposição.

— Sim, isso eu sei, mas quero saber como vamos nos alimentar, sem sermos vistos? Já estou cansada de comer bichos de rua.

— Então era você que estava se alimentando dos bichanos da rua. Você foi uma guerreira. Eu também quando descobri minha condição fiz isso. Mas os pobrezinhos não têm sangue apropriado a nossa alimentação e por isso você estava insaciável.

— Então o que você me sugere? — Seu olhar demonstrava uma certa ansiedade.

— Eu trabalho em um hospital e sempre pego bolsas de sangue escondidas. Mais tarde estarei num plantão, na radiologia e posso conseguir algo para nós.

E assim, eles começaram um romance intenso, movido a noites de sexo e sangue. Logo Billie pode andar novamente na praia durante o dia. Algo de especial a protegia dos perigos do sol. Mas um fato mudaria seus planos. A polícia bateu na sua porta, um dia e a intimou a prestar depoimento, sobre a morte da Elza.

Depois de dois dias daquela festa de Gótico, o dono do bar foi ao estabelecimento com alguns funcionários fazer a faxina e sentiu um cheiro insuportável de carniça. Quando abriu a porta do quintal viu aquela cena de um corpo, com a cara no chão. Ligou para o 190 e o lugar foi isolado. Sem alarde, os investigadores foram convocando um a um, as pessoas que estiveram naquela noite, trabalhando ou se divertindo.

Como Billie chegou com a amiga e saiu com Joel, ela tinha um álibi forte. Mas nos exames necroscópicos, encontraram o DNA de Billie. Não poderiam a prender porque, aquilo não provava um assassinato. E as marcas no pescoço eram parecidas com um ataque animal e não de um humano. Mas ela ficou na mira dos policiais civis.

Um investigador ficou na sua cola. Ela precisou fazer uns ajustes na sua rotina. Não poderia ir ao encontro de Joel em busca de sangue, no estacionamento do hospital. Ficou desesperada. E seu namorado não podia sair com aquelas bolsas de sangue, pois o sistema de segurança detectava qualquer saída de objetos de dentro da unidade hospitalar, então tudo era consumido lá mesmo, as escondidas.

Foi quando Billie teve uma ideia. Aproveitou o fim de semana de folga do trabalho, e partiu para Quixeramobim, onde tinha familiares. Foi de ônibus. A viagem de três horas foi uma tortura. Uma moça se sentou ao seu lado e ficou puxando assunto. E seu faro, detectava o sabor de sangue daquela pobre alma. Com sua força, ela poderia atacar o ônibus todo, no meio da estrada. Não teria testemunhas. Poderia simular um acidente.

Mas se aguentou. Conseguiu chegar no meio do sertão, onde tios moravam. Foi bem recebida na casa dos parentes. Se instalou, deitou-se numa rede e dormiu. Acordou na madrugada, com o som dos grilos e das rãs. Quando todos foram dormir, ela entrou matagal adentro e foi a caça de bichos. Caçote, preá, jumento, galinhas. A trilha de sangue se espalhou e a jovem se saciou momentaneamente.

Pela manhã seu tio voltava aos gritos, para dentro de casa. Seu coração disparou. Ele olhou para sobrinha e disse.

— Minha filha, você tem que ir embora, imediatamente — O senhor falava aquilo com um olhar acusatório, que a fez tremer.

— Vou arrumar minhas coisas.

— Faça isso, eu vou lhe deixar na rodoviária. Não se preocupe, vamos ficar bem.

            — Posso ajudar em alguma coisa? A final a culpa foi minha.

            — Sua culpa? Por quê? Os bichos foram todos mortos, por alguma criatura e quero que você vá embora, me preocupo contigo, não quero mal algum acontecendo com minha sobrinha.

            Ela então ficou aliviada. Mas um pouco triste pelo estado de medo que deixou nos seus parentes. Não queria aquilo, mas era uma criatura do ‘mal’ agora, não poderia fugir ao seu estado natural do momento. Mal ela sabia que um mandado de prisão seria expedido para ela em alguns dias, pelo assassinato de sua amiga Elza.



            Na volta no ônibus, ela vinha muito triste e em estado de profunda depressão. Num sol irritante, mesmo no ar-condicionado do transporte. Quando a senhora vinha puxando conversa com ela, não se aguentou e pulou no pescoço da idosa. Na cadeira ao lado um homem presenciava tudo. Quando ela se virou, o olhar do rapaz ficou arregalado. Os dentes de Billie estavam sujos de sangue, seu olhar era de necessidade. Pulou em cima do homem, que tentou em vão se soltar. Uma criança gritou.

            Pessoas foram para tentar libertar o homem. Mas Billie estava no controle agora e não deixaria mais escapar nada. Os 33 passageiros estavam mortos. Na verdade, ela deixou a criança com vida.  Pegou na mão dela e a tirou do transporte. Voltou e pegou a direção do carro e levou até uma ponte e acelerou para o precipício. Deu tempo sair e ver o veículo batendo nas rochas.

            Sabia que não poderia mais voltar para Fortaleza, agora era sair pelo mundo afora sem rumo. Antes que a prendessem.

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