Os dentes afiados saíram de uma boca carnuda, ela precisou se olhar no espelho do banheiro, enquanto ajeitava a maquiagem, para ter certeza, de que aquilo estava mesmo acontecendo. Num dos vasos sanitários, um corpo negro, com o pescoço se derramando em sangue.
O
som lá fora, num palco, uma banda gótica, em meio a fumaça, fazia a
apresentação. O público se espremia, alguns ainda conseguiam sacudir o corpo em
uma dança psicodélica. Billie ainda se olhava chocada. Mas teve que se recompor
e fechou a porta de um dos assentos sanitários para não perceberem ainda, o que
tinha ocorrido e ligarem sua pessoa, ao crime.
Billie
tinha 32 anos, cabelos lisos, olhos castanhos escuros, uma silhueta
proporcional a sua altura. Estava de calça preta, camisa branca com o nome da
sua banda favorita: Crypta. Uma banda de death metal, de São Paulo composta só
por mulheres. Mas era ouvida em vários lugares do Brasil. Inclusive em
Fortaleza. Por cima da camisa, uma jaqueta preta.
O
estilo era bonito, apesar do calor da cidade nordestina. Logo a garota voltou
ao balcão, onde se encontravam suas amigas e pediu uma cerveja.
—
Billie, você demorou. Encontrou algum crush? — Perguntou Tablita.
—
Pois você acertou. Eu não me contive — Ela falou, mas seu pensamento só estava
conectado a cena do banheiro.
O
som da banda cearense Plastique Noir mexia com as pessoas de uma forma
diferente. Alguns se beijavam, outros se mexiam, outros apenas ficavam sentados
na mesa bebendo e conversando. Snake Bar, um espaço do rock, no bairro Benfica.
Lugar para bandas autorais e covers.
Joel era daqueles caras esquisitos, meio
incel. Seus 25 anos, ainda sem tirar a virgindade, lhe tornava uma pessoa
motivo de bullyings na escola. Eram recorrentes os momentos que os mais
espertinhos tiravam brincadeira com ele. E agora que fazia faculdade de
filosofia, a sua consciência do mundo, lhe tornava mais sombrio e triste. Mas o
bar de rock lhe fazia pertencer a uma comunidade. Às vezes parecia que nem
nesse mundo diferente era aceito.
Mas
naquela noite sua sorte parecia ter mudado. Ou melhor, seu destino estava se
encaminhando para uma nova realidade. Nunca a Billie tinha o olhado, como ele
gostaria. Sempre ele nutria aquele amor platônico e não tinha coragem de dizer
nada. Ficava stalkeando as redes sociais da mulher, mas sem nunca demonstrar
que estava interessado.
Como
Billie estava diferente, seu sangue fervia de uma maneira completamente nova,
suas percepções de mundo também haviam se alterado. Agora, era uma vampira.
Como isso fora acontecer? Ele não entendia. Mas foram tantos porres, tantas
noites capotadas, na cama de uma mulher, de homens, de uma orgia.
Era
responsável, trabalhava como bioquímica, numa empresa de produtos aromáticos.
Mas não perdia um fim de semana, para sair da rotina. Isso de virar uma
farrista se deu, quando seu pai saiu de casa há sete anos, deixando sua mãe com
depressão, até ela ter um ato extremo. Como era filha única, vendeu a casa e
comprou um apartamento e foi morar sozinha. Não se arrependeu. Tinha uma
profissão, tinha herdado alguns bens e dor dentro de si, com os acontecimentos.
As
lembranças da infância na Serra da Meruoca, no frio, na casa dos seus avós, era
algo sempre a lhe deixar chorosa. A saudade de um tempo que nunca mais voltaria
a se realizar. Todos de importância para ela tinham morrido. Chegou a morar com
um rapaz, filhinho de papai, mas ele passava o dia jogando vídeo game e fumando
um baseado e só tinha de bom o sexo. Era pouco para Billie uma mulher
inteligente, cheia de esperanças de expandir seus conhecimentos cada vez mais.
O
show estava terminando, a casa começava a ficar dispersa e poucas pessoas
continuavam ao som ambiente. Numa mesa sozinho, Joel bebia seu whisky e se
espantou quando se aproximou Billie.
—
Você vai ficar aí parado? Não vai puxar a cadeira para me sentar? — Com um
olhar penetrante ela ordenou algo irrecusável a um solitário.
—
Você vai bem? — Com a voz tremula, ele buscou dizer algo.
—
Eu sei que você sempre me olhou. Desculpa nunca reparar nisso. Mas eu sempre
estava agitada, fugindo de mim mesma.
—
Sei, tudo bem, que bom está aqui.
—
Tudo bem, nada. Você é muito passivo. Deveria se revoltar e mostrar ao mundo o
que você é capaz.
—
Não gosto de ser violento. Estou bem assim. Pelo menos sei meu lugar.
—
Não digo fazer mal aos outros. Mas sim, se portar como um homem, com postura de
ação.
—
O que você me sugere?
—
Me puxe para perto de você e me beije.
Nem
ela imaginava, como isso seria algo libertador para ele. Joel, com a mão
direita, pegou a mão de Billie, depois com a outra mão, segurou seu rosto e
puxou para perto do seu. Agora eles se olhavam, a uma pequena distância. Ela o
farejava, sentia o frescor do seu sangue, mas não podia fazer nada ali. Já
tinha se livrado de um corpo, que estava largado na escuridão do quintal e só o
veriam, algum dia quando fossem lá, ou quando o cheiro se tornasse
insuportável.
Ela
se deixou beijar. Ele começou vagarosamente. Depois foi se soltando com sua
língua, dentro da boca dela. E algo aconteceu. Os corpos se conectaram. Billie
ficou transtornada com aquela paixão surgida, que em breve viraria seu
alimento. Suas amigas ficaram olhando com pavor. Como ela ficaria com aquele
homem tão estranho?
Na
saída ela pegou seu carro e disse que daria carona para Joel. No caminho até
sua casa, seu olhar era diretamente no pescoço dele. Ele sorria com satisfação.
Nunca tinha beijado ninguém até aquele momento. O mundo havia se aberto na sua
frente. Existia uma felicidade no seu ser. Billie o convidou para seu
apartamento. Joel não queria ir, pois tinha medo de quebrar aquele encanto, mas
acabou cedendo, depois de outro longo beijo, que mexeu com várias partes do seu
corpo.
Morar
no 11.º andar de um apartamento no Meireles, de frente ao mar, era um dos
privilégios, dessa jovem. Mas como se acostumar a morar numa vista tão bonita,
se sua condição atual mudara e o sol era um terror para sua pele. Há uns três
meses, ela fazia sua caminhada matinal, pelo calçadão da Beira Mar, quando
começou a ser sentir uma coceira por todo o corpo. Correu para casa, tomou um
banho e se trancou no quarto. Quando teve o alívio, se arrumou e foi trabalhar.
Seu carro tinha vidro fume. Então ela estava protegida dos perigos da luz.
E
durante os três meses, a fome e a sede eram intensos. O calor era angustiante.
Ela foi ao médico. Fez uma bateria de exames e nada foi visto como anormal.
Apenas duas marcas no lado direito do pescoço. Com o passar dos dias, ela se
acostumou com seu novo estado. Só não sabia o que era, quando teve um surto e
atacou uns gatos de rua, que ficavam vagando pelo estacionamento. Não tinha
ninguém naquela hora por perto, para sua sorte. Sentiu um alívio, ao tomar
aquele sangue. Mas o que era aquilo? Não podia conversar com ninguém sobre o
assunto.
Teve
que se livrar dos corpos dos felinos. Chorou ao chegar ao apartamento. Ela
gostava muito de animais, não entendia. Mas sabia que o sangue era algo que de
agora em diante faria parte da sua dieta. Não seria louca de atacar humanos.
Poderia ser perigoso. Alguém descobriria.
Ficou
cada vez mais reclusa. Às vezes recebia os amigos e amigas em casa, para ouvir
música e beberem. Mas quando ela percebia que poderia perder o controle,
mandava eles irem para casa. Desligava o som. Alguns ficavam sem entender a
súbita mudança assim.
Quantas
vezes no trabalho olhava ao pescoço dos colegas, com vontade de avançar sobre
eles, mas se aguentava. Não poderia dizer o mesmo, quando via o gato de rua.
Fazia-se de uma pessoa acolhedora e começou uma rotina de pegar os felinos
soltos pelas ruas da cidade. O pessoal via aquilo e achava lindo. Uma mulher
sendo caridosa, adotando um animal. Mal sabiam eles, que os bichinhos apenas
seriam alimentos para aquela fera.
Era
um sangue ruim. O gosto, como se estivesse comendo uma comida ensossa. Mas pelo
menos aquilo a deixava aliviada. Os meses foram passando e os gatos de rua
foram acabando. Ela já tinha rodado a cidade toda e não sabia mais o que fazer.
Então
partiu para os cães vira-latas. No começo o nojo foi grande. Mas sua fome era
maior. E tinha que ser saciada. Mas também, depois de um curto espaço de tempo,
não existiam mais quase animais assim soltos. E agora? Invadir a casa das
pessoas? Entrar escondido em canis? Petshops?
Não,
ela estava cansada disso. Passou dias, sem se alimentar de sangue. Foi quando
surgiu o convite para a festa no Snake Bar, ‘a noite do gótico’. Ela queria ver
gente. Abraçar os amigos, tentar esquecer aquilo. Passou até uns dias lendo
sobre o mundo dos vampiros, Conde Drácula e percebeu que o sangue de humanos
era o alimento correto e que não necessitaria de tantas vezes, mas de momentos
específicos e assim ganhar a vida de volta.
Elza
era sua melhor amiga. E foram juntas a festa. Uma casa de show, com paredes
pretas, com um espaço para jogar sinuca, um palco, um banheiro feminino e um
masculino. Elas se divertiam, dançando e bebendo.
—
Billie vou jogar sinuca, vamos — Elza falou isso e levantou-se em direção a
sala onde se encontrava a mesa do jogo.
—
Vai você, eu vou ficar um pouco aqui — Billie não se sentia bem.
Pensou
em ir embora, a caça de animais de rua. Foi se despedir da amiga. Quando chegou
ao salão onde se encontrava a sinuca, viu sua amiga jogando sozinha e despertou
uma vontade de finalmente se alimentar de sangue humano. Se aproximou de Elza.
Mas em vez de morder seu pescoço, a beijou. Foram juntas ao banheiro masculino.
Se entregaram a uma paixão avassaladora.
Elza
sentia que existia um desejo naquele contato. Mal sabia ela, que o desejo de
Billie era outro. Quando foi jogada na parede e virada de costas, teve o cabelo
colocado de lado e o pescoço ficou à vista. Os dentes se formaram e ficaram
prontos para o ataque. E a sua primeira vítima, humana, estava sem vida. Ela
tentou esconder a colega no banheiro, mas as pessoas batiam querendo entrar,
então ela usou a abertura que tinha para o quintal e jogou o corpo para fora.
Joel
agora estava dentro da casa de Billie. Ela foi tomar um banho, enquanto ele
olhava os quadros e mexia no celular. Quando menos percebeu, ela voltou, de
vestido vermelho, olhos escuros e salivando.
—
Que estranha você está Billie, parece uma vampira. É sua fantasia de Halloween?
— Perguntou o rapaz sorrindo.
—
Que bom, que você reconheceu, podemos poupar logo nosso tempo — Disse a mulher
com um olhar de prazer.
Ela
se aproximou dele. Sentou-se ao seu lado no sofá. O abraçou e afiou seus dentes
para executar mais uma vítima. Mas foi interrompida, pela risada do jovem.
—
Você está mesmo pensando em morder meu pescoço para se alimentar? Pois vai
fundo. Quero ver se vai se sentir bem mordendo alguém da sua espécie.
Billie
recuou e ficou perplexa com a revelação. Mas pensou rapidamente, que poderia
ser um truque e voou em cima de Joel. O rapaz pegou o pescoço dela com as mãos
e abriu a boca e mostrou os dentes afiados. Então a vampira se deixou cair no
chão e ficou por um tempo o olhando.
Conversaram
por horas. Ela fez inúmeras perguntas, trocou algumas informações com ele. E
sentiu-se bem mais aliviada ao saber que tinha alguém da sua espécie. Agora
poderia ter um parceiro em busca de alimento.
—
Primeiro, temos que ter cuidado. A discrição pode garantir a nossa
sobrevivência no meio dos humanos — Ele falou com um tom de imposição.
—
Sim, isso eu sei, mas quero saber como vamos nos alimentar, sem sermos vistos?
Já estou cansada de comer bichos de rua.
—
Então era você que estava se alimentando dos bichanos da rua. Você foi uma
guerreira. Eu também quando descobri minha condição fiz isso. Mas os
pobrezinhos não têm sangue apropriado a nossa alimentação e por isso você
estava insaciável.
—
Então o que você me sugere? — Seu olhar demonstrava uma certa ansiedade.
—
Eu trabalho em um hospital e sempre pego bolsas de sangue escondidas. Mais
tarde estarei num plantão, na radiologia e posso conseguir algo para nós.
E
assim, eles começaram um romance intenso, movido a noites de sexo e sangue.
Logo Billie pode andar novamente na praia durante o dia. Algo de especial a
protegia dos perigos do sol. Mas um fato mudaria seus planos. A polícia bateu
na sua porta, um dia e a intimou a prestar depoimento, sobre a morte da Elza.
Depois
de dois dias daquela festa de Gótico, o dono do bar foi ao estabelecimento com
alguns funcionários fazer a faxina e sentiu um cheiro insuportável de carniça.
Quando abriu a porta do quintal viu aquela cena de um corpo, com a cara no
chão. Ligou para o 190 e o lugar foi isolado. Sem alarde, os investigadores
foram convocando um a um, as pessoas que estiveram naquela noite, trabalhando
ou se divertindo.
Como
Billie chegou com a amiga e saiu com Joel, ela tinha um álibi forte. Mas nos
exames necroscópicos, encontraram o DNA de Billie. Não poderiam a prender
porque, aquilo não provava um assassinato. E as marcas no pescoço eram
parecidas com um ataque animal e não de um humano. Mas ela ficou na mira dos
policiais civis.
Um
investigador ficou na sua cola. Ela precisou fazer uns ajustes na sua rotina.
Não poderia ir ao encontro de Joel em busca de sangue, no estacionamento do
hospital. Ficou desesperada. E seu namorado não podia sair com aquelas bolsas
de sangue, pois o sistema de segurança detectava qualquer saída de objetos de
dentro da unidade hospitalar, então tudo era consumido lá mesmo, as escondidas.
Foi
quando Billie teve uma ideia. Aproveitou o fim de semana de folga do trabalho,
e partiu para Quixeramobim, onde tinha familiares. Foi de ônibus. A viagem de
três horas foi uma tortura. Uma moça se sentou ao seu lado e ficou puxando
assunto. E seu faro, detectava o sabor de sangue daquela pobre alma. Com sua
força, ela poderia atacar o ônibus todo, no meio da estrada. Não teria
testemunhas. Poderia simular um acidente.
Mas
se aguentou. Conseguiu chegar no meio do sertão, onde tios moravam. Foi bem
recebida na casa dos parentes. Se instalou, deitou-se numa rede e dormiu.
Acordou na madrugada, com o som dos grilos e das rãs. Quando todos foram
dormir, ela entrou matagal adentro e foi a caça de bichos. Caçote, preá,
jumento, galinhas. A trilha de sangue se espalhou e a jovem se saciou
momentaneamente.
Pela
manhã seu tio voltava aos gritos, para dentro de casa. Seu coração disparou.
Ele olhou para sobrinha e disse.
—
Minha filha, você tem que ir embora, imediatamente — O senhor falava aquilo com
um olhar acusatório, que a fez tremer.
—
Vou arrumar minhas coisas.
—
Faça isso, eu vou lhe deixar na rodoviária. Não se preocupe, vamos ficar bem.
— Posso ajudar em alguma coisa? A
final a culpa foi minha.
— Sua culpa? Por quê? Os bichos
foram todos mortos, por alguma criatura e quero que você vá embora, me preocupo
contigo, não quero mal algum acontecendo com minha sobrinha.
Ela então ficou aliviada. Mas um pouco triste pelo estado de medo que deixou nos seus parentes. Não queria aquilo, mas era uma criatura do ‘mal’ agora, não poderia fugir ao seu estado natural do momento. Mal ela sabia que um mandado de prisão seria expedido para ela em alguns dias, pelo assassinato de sua amiga Elza.
Na volta no ônibus, ela vinha muito
triste e em estado de profunda depressão. Num sol irritante, mesmo no
ar-condicionado do transporte. Quando a senhora vinha puxando conversa com ela,
não se aguentou e pulou no pescoço da idosa. Na cadeira ao lado um homem
presenciava tudo. Quando ela se virou, o olhar do rapaz ficou arregalado. Os
dentes de Billie estavam sujos de sangue, seu olhar era de necessidade. Pulou
em cima do homem, que tentou em vão se soltar. Uma criança gritou.
Pessoas foram para tentar libertar o
homem. Mas Billie estava no controle agora e não deixaria mais escapar nada. Os
33 passageiros estavam mortos. Na verdade, ela deixou a criança com vida. Pegou na mão dela e a tirou do transporte.
Voltou e pegou a direção do carro e levou até uma ponte e acelerou para o
precipício. Deu tempo sair e ver o veículo batendo nas rochas.

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