Donos de um dom único os artistas de rua mostram seu trabalho para
turistas e por quem passeia na orla marítima da cidade
Fazer arte é algo que muitas vezes pode ser
simples e em outras vezes complexa. Desde a inspiração, até o momento de
negociar os produtos, têm-se muitas etapas a serem vencidas. Não basta nascer
com um dom em especial, tem que saber lapidá-lo, e fazer com que as pessoas se
interessem por ele.
No Calçadão da Beira Mar em Fortaleza é possível encontrar de tudo, pessoas
praticando esportes, feirinha de produtos regionais, vendedores de pacotes
turísticos, barracas com comidas e show de humor. Em especial tem um grupo que
muitas vezes parece esquecido pelos fortalezenses, porém tem seu trabalho com
grande aceitação pelos turistas que visitam nossa capital.
Estamos falando dos artistas de rua. Espalhados por boa parte da Beira-Mar, mas
concentrados principalmente entre a feirinha e o Jardim Japonês, os
trabalhadores da arte, fazem de tudo para que seu trabalho seja reconhecido.
Um desses artistas é Edilson Lima Rocha, 43 anos e que há 13 anos expõe seu
trabalho de pintura de quadros feitos com a composição de acrílico sobre tela,
onde ele retrata o expressionismo urbano, seja com a temática favela, pescador
e outras que mapeiam o Brasil. Edilson já pintou um painel em Cuba e está com uma
mostra na FA7. Tem telas para todos os bolsos, de 300, 400, 3.000, até 4.000
reais. Edilson define a sua entrega à arte da seguinte forma: ”A minha
psicóloga falou que se não fosse pintor, seria uma pessoa perigosa”.
No ramo
de pintura na Beira Mar existem cerca de 20 pintores dividindo os olhares dos
diversos turistas que passam ali todas as noites. “No mercado da arte não existe
concorrência, cada pessoa possui um estilo próprio. No meu caso quem compra
mais minhas pinturas são os turistas europeus, devido eles já estar num estágio
mais avançado que o brasileiro e, portanto com uma sensibilidade maior para
arte” conclui Edilson.
Para algumas pessoas ganhar o pão todos os dias é algo penoso. Ter que acordar
cedo, aguentar reclamações do seu chefe, ganhar um minguado salário que muitas
vezes nem completa as contas do mês. Mas diante de tantas dificuldades é melhor
mudar mesmo de profissão, foi dessa maneira que Marcelino Brabo, 52 anos largou
o trabalho de 20 anos na Coelce para arrumar um algo a mais que completasse o
seu orçamento, começou como professor de teatro, logo depois veio mexer com
áudio visual e também virou professor dessa área, porém queria ganhar mais.
Foi assim que resolveu trabalhar com artesanato. PVC e papel. “Com o PVC faço abajur, cantoneira,
luminária, porta-retratos, porta chaves, lustres e quadro de paredes, tenho um
atelier nas Goiabeiras e venho vender meus produtos aqui na Beira Mar. Meus
produtos já foram vendidos para Argentina e Itália e quem mais os compra são os
casais”. Complementa
Marcelino.
A verdade é que na Beira
Mar tem arte para todos os estilos, encontramos imagens de santas feitas de pó
de pedra, carrinhos, bicicletas e motos, feitos de arame. Tem até gravação de
frases em arroz, um minúsculo arroz que é colocado dentro de um pingente e pode
ser dado para alguém que você gosta. Katiane Mendes, estudante de jornalismo da
Fanor, e que acompanhou a reportagem, comprou por R$ 15,00 um colar com seu
nome e de seu namorado. “aproveitei a oportunidade de estar na Beira mar no dia dos namorados e
vou presentear alguém que eu gosto” relembrou Katiane. O artesão responsável por esta peculiar
forma de arte é Severino Xavier, 27 anos, afirma que aprendeu seu ofício na
Paraíba e define sua arte da seguinte forma: “É uma arte milenar.
O arroz simboliza a prosperidade, por isto se joga arroz em casamentos”.
Não é de impressionar tanto essa multiplicidade de gente em busca
de atenção, já que ali próximo ao Náutico Atlético Cearense, é o local que
concentra mais pessoas. Nesse espaço bem em frente ao espigão que está sendo
construído pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, sentando no seu banquinho de
violão na mão, com uma boina na cabeça e ao seu lado uma mesa com CD´s
expostos, estava Gerardo Lúcio, 42 anos, mais um personagem dessa história.
Desde 1989 envolvido com música gospel ele já lançou 34 álbuns, todos feitos no
estúdio em sua casa. Cada CD custa R$ 10, e ali mesmo no calçadão, Gerardo
canta ao vivo as músicas. Na pressa, quase ninguém se permite parar e ver sua
apresentação, porém alguns compram o seu CD e depois seguem seu caminho. São
pessoas de vários Estados como Natal, Sergipe e principalmente Brasília,
público que, segundo o cantor Gospel é o para quem vende mais seus CD’s.
“Eu trabalhava com a música
secular, MPB, Pop... aí tive o chamado de Deus. Comecei a tocar nas Igrejas, aí
pensei, porque não expandir? Nesse trabalho não levo só meu nome, mas o
evangelho. Já lancei 35 CD´s, sou o artista cearense que mais tem CD´s
gravados” falou Gerardo.
Outro
personagem da Beira Mar é Antônio Marcos, 35anos, artesão. Ele trabalha há 12
anos com artesanato, e sustenta os filhos com seu “hobby”, vende mais para os
turistas de que para os fortalezenses. Antônio afirma que produz suas peças de
arame desde os 22 anos, entre elas belas motocicletas estilo Harley-Davidson. Antônio
trabalha de 7h até 22h, uma rotina pesada, mas para quem ama o que faz, não é
trabalho, é prazer.
Francisco Mota Araújo, 29 anos, tem uma das profissões mais curiosas da Beira
Mar, ele é estátua viva. Ele utiliza purpurina a óleo de panela no corpo para
obter sua cor prateada, e está nesta ocupação há um ano e oito meses. O rapaz,
franzino, nos pareceu um pouco confuso em suas respostas, primeiramente nos
disse que vivia com seu irmão, depois mudou sua história, afirmando que vivia
com o pai. Também confundiu o tempo que trabalhava em sua ocupação de estátua
viva.
Em nossa segunda visita à Beira Mar, enquanto caminhávamos pela orla, cruzamos
o caminho da Fortaleza Apavorada, movimento organizado pela classe média
fortalezense, com intenção de levantar o debate sobre a violência que vem
aumentando na cidade a cada dia e tem feito novas vítimas a todo o momento.
O movimento, segundo os organizadores, reuniu cerca de 10 mil participantes,
para a polícia militar, eram cerca de 3 mil e foi pacífico, não houve qualquer
incidente entre polícia e participantes. A concentração começou a partir das
15h, em frente ao Palácio da Abolição. Palavras de ordem como “Fora corrupção!
Impunidade não! Queremos solução” foram ditas pelos manifestantes. Faixas e
cartazes com frases em português e inglês se destacavam: “Na copa é tudo lindo
e o povo se iludindo” e “Fortaleza Apavorada, segurança já”. Pelas nossas
contas, não passaram de algumas dezenas de pessoas, talvez por o movimento já
estar se dividindo quando chegou à avenida Beira Mar. Ao chegarem à frente do
Jardim Japonês, o movimento parou sua caminhada e houve um discurso de um dos organizadores,
Clóvis Nunes, que integra o
Conselho Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça e é
coordenador nacional do Movimento Paz pela Paz. Depois o trio elétrico que
acompanhava a manifestação tocou o Hino Nacional e todos ergueram suas mãos
pintadas de vermelho, que era o símbolo do movimento, e cantaram o hino. Em
seguida, a manifestação chegou ao fim e todos deixaram a avenida.
Pouco depois da passagem da manifestação, encontramos outro interessante
personagem, seu nome era F. M., 50 anos, artesão paulista, trabalha em sua
profissão há 7 meses, é formado pela Universidade Mackenzie, de São Paulo, em
Artes Plásticas.
Fabrica
requintadas bolsas à mão e as vende de R$ 50 a R$ 120 para turistas,
principalmente, mas também negocia com lojas da Avenida Monsenhor Tabosa. F. M.
nos contou também que é ex- usuário de drogas, por isto, pediu para não ser
identificado na reportagem, passou cerca de um ano em tratamento em clínica
particular do Euzébio, chamada de Vila Serena, seguidora dos preceitos dos
Narcóticos Anônimos e seus 12 Passos. F.M. afirma ainda que conviveu com o
vício em drogas pesada por 12 anos, hoje é um adicto.
*Texto
meu coautoria Roberto Eduardo
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