O caminho do sol
À tarde de Fortaleza estava igual aos mesmos dias de sempre, em uma cidade que
cresce a cada ano. Segundo os dados do IBGE de 2012, cerca de dois milhões e
meio de pessoas estão disputando cada espaço, cada milímetro da cidade. Eu por
exemplo estava ali dentro do ônibus a caminho da reportagem sobre a Praça do
Ferreira e fritava com o sol refletindo sobre mim, sentado numa cadeira do lado
do corredor e uma mochila de um passageiro esfregando no meu rosto a cada
freada. O horário de 13h no Centro da Cidade é meio conturbado e por isso
quando o motorista chega ao ponto final de parada, na Rua General Sampaio, eu
saio aliviado daquele transporte.
Quando olho para frente, já na calçada, vejo barreiras enormes de
camelos, o som estridente dos vendedores de CD/DVD, que na ânsia de vender seus
produtos aumentam o som. Nas lojas em frente, os locutores estão apresentado às
promoções da hora. Entro a direita no Shopping Camelo, já tinha até almoçado,
mas aquele cheiro de comida era forte e passo rápido pelo corredor de lojas,
até alcançar o calçadão da Liberato Barroso e caminho até chegar ao meu destino.
A praça
Aqui na Praça do Ferreira (já chamada de Feira Nova, Pedro II, da
Municipalidade) o sol foi vaiado em janeiro de 1942, quando há cidade tinha por
volta de 180 mil habitantes e os frequentadores ainda andavam de
paletó e gravata atrás das moças da sociedade que caminhavam em seu “salto
fino”.
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| Foto: fonte Guia Mais Ceará |
Muito diferente de hoje.
Quando apenas alguns aposentados estão ali bem alinhados de calça social,
camisa listrada de botão e sapato social. Eu cheguei e fiquei olhando os bancos
de madeira com encosto espalhados pela retangular praça. Até tinha lugares
vazios, que dava para sentar, se não fosse o sol que incidia seus raios sobre
nós. Quando vi uma vaga surgindo numa sombra onde estavam sentadas algumas
pessoas, sentei também.
Um idoso ao meu lado observava o movimento, enquanto dois equatorianos com
trajes de índio se preparavam para uma apresentação. As músicas eram
instrumentais com um instrumento de sopro, quando um deles tocava, outro
dançava uma espécie de dança da chuva.
Ali contemplando a movimentação de pessoas passando e vendedores de água, de
doces, de lanches, gente oferecendo chip de celular, outras engraxando sapatos,
alguns pedindo dinheiro. Sem saber por onde começar eu resolvo fazer uma
ligação para alguém conhecido e que uma vez ou outra está pela praça, jogando
conversa fora com outras pessoas que já contribuíram muito para a família, para
criar os filhos.
Apenas um cara
Geralmente quem senta ali no banco da Praça do Ferreira tem muita história de
lutas e sofrimentos para contar. João Bosco Araújo Silveira, 67 anos, é um
senhor meio diferente de tudo isso. Não que ele seja hippie ou tenha idéias
revolucionárias sobre o mundo. Mas ele é uma pessoa cheia de histórias para
contar. Filho de uma pianista e de Farmacêutico, natural de Parnaíba - PI veio
ao Ceará ainda criança de oito anos, devido à asma, doença que necessitava de
uma cidade mais arborizada como Fortaleza.
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| Imagens Internet |
Assim ele me acompanhou
para o Dudas Burgue´s por volta de
15h, onde fui tomar o café com leite, cuscuz e queijo, presunto e ovos, uma
comida típica da tarde, no interior do Ceará. O Bosco ficou ali comigo, mas
meio tenso querendo beber algo. E acompanhei-o até o L´escale, um restaurante dentro de um desses shoppings do centro da
cidade. Ele já tinha bebido antes e estava um pouco alterado e começou a dar em
cima de mulheres que via pelo caminho, como vendedora de lojas, ou estudantes
que ele avistava pela frente. Até gosto de paquerar, mas achei que o lugar e a
hora não eram apropriados para esse tipo de galanteios.
Bosco pediu uma garrafa
de 300 ml de cerveja e começou a contar um pouco da sua experiência da vida e
das suas andanças pela Praça do Ferreira.
Falando do passado
Sentar no banco e
pensar era melhor do que conversa com um bêbado que em seu estado etílico se
esquece das suas vivencias na Praça do Ferreira. Era manhã de sábado mais um
dia estava eu ali. Praticamente em frente ao Cine São Luiz, construção iniciada
em 1939 e concluída em 1959 com capacidade para 1500 pessoas. Ouço a noticia no
rádio, que o cinema que está fechado há mais ou menos três anos irá ter
reinauguração em breve no mês de dezembro.
Assim ele me acompanhou para o Dudas
Burgue´s por volta de 15h,
onde fui tomar o café com leite, cuscuz e queijo, presunto e ovos, uma comida
típica da tarde, no interior do Ceará. O Bosco ficou ali comigo, mas meio tenso
querendo beber algo. E acompanhei-o até o L´escale,
um restaurante dentro de um desses shoppings do centro da cidade. Ele já tinha
bebido antes e estava um pouco alterado e começou a dar em cima de mulheres que
via pelo caminho, como vendedora de lojas, ou estudantes que ele avistava pela
frente. Até gosto de paquerar, mas achei que o lugar e a hora não eram
apropriados para esse tipo de galanteios.
Bosco pediu uma garrafa de 300 ml de cerveja e começou a contar um pouco da sua
experiência da vida e das suas andanças pela Praça do Ferreira.
Falando do passado
Sentar no banco e pensar era melhor do que conversa com um bêbado que em seu
estado etílico se esquece das suas vivencias na Praça do Ferreira. Era manhã de
sábado mais um dia estava eu ali. Praticamente em frente ao Cine São Luiz,
construção iniciada em 1939 e concluída em 1959 com capacidade para 1500
pessoas. Ouço a noticia no rádio, que o cinema que está fechado há mais ou
menos três anos irá ter reinauguração em breve no mês de dezembro.
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| Imagens: Blog Fortaleza Nobre |
Como falar da praça e de suas histórias através dos olhares dos
seus frequentadores. Esse é um desafio para esse meu segundo dia de
visita e observação. Estou sempre nesta praça, não sei precisar ao certo quando
foi à primeira vez, que estive frequentando as sempre que vou ao centro da
cidade, tenho um local certo para descansar e refletir sobre a vida.
João Leal (nome fictício), 73 anos, sentou ao meu lado, era um senhor ideal
para fazer uma panorâmica do que é a praça. Mas os anos longe de Fortaleza, o
distanciaram dessa ligação com coração da capital alencarina. “Eu fiquei 28
anos em Brasília trabalhando na construção civil para a Polícia Federal. Ta com
oito anos que vim de volta para Fortaleza. Desde meus 18 anos vinha na praça.
Aqui ta tudo acabado”.
Os olhares do senhor ao lembrar-se das experiências no Centro da Cidade são de
quem ver longe algo que não mais existe. Em 1940, o edifício Diogo, na Rua
Barão do Rio Branco era inaugurado em um prédio de oito andares, onde abrigava
o cinema e depois o auditório da Ceará Rádio Clube, hoje no local funciona, um
shopping e uma casa do cidadão.
O construtor de grandes obras em Brasília, João Leal, ver com tristeza a
invasão de shopping para todos os lados. “A Praça José de Alencar, só tem
camelo, ninguém pode mais ver a praça, que virou puteiro. Na Praça dos Leões
arrancaram os óculos da Raquel de Queiroz. O Ferreira, a estátua em homenagem a
Praça do Ferreira está dentro do buraco em um piso abaixo e ninguém o ver
mais”.
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| imagens da internet |
João se
lembra do Hotel Savanah, que foi inaugurado em 1963, por Carlos Jereissati e
que em 1992 o hotel entrou em falência, devido aos hotéis construídos na Beira
Mar. No antigo prédio hospedes famosos, como Pelé. Atualmente o prédio conta
com as Casas Bahia. São 10 suítes e 128 apartamentos em 13 andares.
Quando a gente se lembra que nessa mesma praça, Lula já fez comício,
recentemente Marina Silva também e que grandes shows acontecem por aqui como na
abertura do Natal de Luz, no último dia (28) com o cantor Fagner. E as crianças
que cantam as músicas de natal no Excelsior Hotel de 82 anos de histórias, em
frente ao Hotel Savanah. No Excelsior já se hospedaram de acordo com jornais da
época, o cineasta Orson Wells e o ex-presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek.
Figuras da Praça
Aqui tem cada figura que nos deixa perplexo, quando vemos. No sol dessa tarde,
de um dia da semana, uma senhora obesa, em uma cadeira de roda e com apenas um
olho enxergando, pois o outro já não abre devido a uma provável cegueira, está
ali, no calçamento quebrado de quadrados soltos, arrastando sua cadeira de roda
e pedindo R$ 0,10 a quem está sentado. Contribui com R$ 0,50 para ver qual a
reação dela que recebe a moeda e prossegue seu percurso em busca de juntar a
esmola para comer algo, ou mesmo consumir drogas, algo comum em alguns
dos frequentadores que se alojaram em torno do nosso
cartão postal.
Mais um dia na minha apuração sobre esse cotidiano aqui na Praça do Ferreira,
que costuma surpreender as pessoas que por aqui passam todos os dias a caminho
do trabalho, ou mesmo num momento de flanar. Sempre quando algum artista se
apresenta é natural que um círculo se forme em torno do espetáculo improvisado.
Dessa vez a apresentação é de três mulheres, que ao som de um tambor, vindo de
uma caixa eletrônica, tentam transmitir alguma mensagem usando o corpo e sem
abrir a boca, se jogam no chão e mudam de local. Elas parecem ser alguma
espécie de estudante da intervenção urbana, algo comum na praça, mas com
artistas de rua.
Olha para essas moças me faz lembrar outro personagem da vida real. Há mais ou
menos um ano atrás, Índio da Chiquinha (Lucival Cardoso), estava na Praça do
Ferreira, fazendo suas apresentações, vestido de índio, com seu corpo magro,
interpretava com humor, os ritmos de outras épocas. Tinha a dança da cintura
quebrada, cavalo manco, entre outras.
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| Fotos: Internet |
O homem vivia viajando pelo Brasil e ainda me lembro de ele ter
falado para as pessoas que costumavam ver seu trabalho, que iria embora de
Fortaleza para outra cidade, pois aqui viria a época da chuva. Até hoje o
artista não voltou e nem a chuva veio para ser aplaudida pelo povo cearense.
Tenho que trocar de lugar na praça, para tentar conversar com alguém, mas não
aparece bem quem eu imaginava. Eu sempre conhecia a fama de que alguns daqueles
idosos sentados naqueles bancos estavam explorando o outro lado do sexo, coisa
que durante a vida não puderam fazer por ter que interpretar o papel de pai e
marido, que a sociedade o pedia. Eu fico sem saber o que falar e resolvo ir almoçar,
na volta sento perto do engraxate. Ele é conhecido na praça e é o único que as
pessoas confiam mais. Ele já tem cabelos brancos e atende em cima de uma caixa,
enquanto embaixo dele está dormindo o seu felino de estimação, em meio aos
barulhos da praça.
Mas não consigo evitar e mais uma vez o senhor de 70 anos, senta ao meu lado e
pela sua voz, percebo que ele é mesmo gay. Resolvo tentar saber um pouco da sua
história e me surpreendo ao saber que ele é de Jaguaruana e está em Fortaleza
se tratando de uma cirurgia de catarata. “Sou fazendeiro, tiro leite de gado e
fui casado 40 anos, tenho três filhos. Há três anos sou viúvo, mas fui feliz no
casamento, minha mulher era uma esposa formidável, que morreu vitima de um
derrame”.
A praça é assim, do nada, ela se transforma e abre novas expectativas para os
transeuntes. Assim começa um show: Valbeane do Acordeon, com sua sanfona, seu
irmão no triangulo, cantando e sua mãe na zabumba, além da pequena irmã que
canta algumas músicas, essa é a família Forro Pé de Serra do Rio Grande do
Norte, fazendo sucesso na Praça do Ferreira. Dessa vez não se faz um circulo,
mas as pessoas se reúnem em grupos menores e apreciam o forrozinho que toca. E
os CD´s são vendidos a 10 reais, ou você vai à caixa de sapatos e bota sua
moeda e contribui para mais um grupo de sucesso e que antes do sucesso briga
pela sobrevivência.
Além do patrimônio material, como a Farmácia Oswaldo Cruz fundada em 1934, e
sendo a pioneira em manipulação do Ceará, tombada em janeiro de 2012, pelo
Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria
de Cultura de Fortaleza (Secultfor), temos na Praça do Ferreira, os símbolos
humanos, como é o caso do poeta Mario Gomes, homem da rua, levado a loucura a
viver sem rumo, mas que conhece bem seu papel histórico.
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| Mario Gomes foto:Raymundo Netto |
Sua poesia Ação Gigantesca vencedora do Festival de Poesia
Cearense, em 1981, marca sua personalidade, “... Beijei a boca da noite. E
Engoli milhões de estrelas. Fiquei Iluminado. Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas...” Várias vezes eu o encontrei com sua jaqueta marrom,
sua calça social surrada e seu cigarro na mão. Mário Gomes parecia mais um
entre tantos homens em busca de encontrar algum lugar para preencher a tristeza
da solidão. Ali na praça ele parecia mais humano, mas gente como os demais.
Sonhos perdidos
Sonhos perdidos
Antes na Praça do Ferreira se comia pastel e tomavas caldo de cana, no Leão do
Sul. Contasse às histórias que os alunos gazeavam aula para se encontrar lá.
Fundado em 1926, foi mesmo ponto de encontro de gerações, antes como mercearia,
onde os senhores de linho branco e chapéu faziam suas compras por lá, depois
com o tempo, virou lanchonete e hoje mesmo com os shoppings e seus lanches
industrializados não são capazes de esvaziar o Leão do Sul, que continua a
produzir um delicioso lanche.
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| Foto: Arquivo |
Na Praça do Ferreira também surgiu grandes inspirações
jornalísticas e literárias. O mais emblemático clube literário chamado de
“Padaria Espiritual” liderado pelo escritor Antônio Sales, teve por lá no Café
Java, em 1892, ao ar livre seu primeiro encontro, onde tinha como objetivo
filosófico prover o pão do corpo e o pão da alma. Aliás, “Pão” era o nome do
jornal que publicava as obras literárias de seus membros.
Por isso quando sento nessa praça sei que estou diante da nossa história e aqui
posso imaginar que os sonhos perdidos podem continuar a nos guiar pelos maiores
sonhos humanos de amor e liberdade.
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