Investimento
ainda não é o bastante para mudar de patamar
Foram muitas emoções para o torcedor
brasileiro nas Olimpíadas de Paris em 2024. As mulheres dominaram com
doze medalhas, das 20 conquistadas pela delegação brasileira. Todas as três de
ouro foram delas: Rebeca Andrade (solo-ginastica), Beatriz Sousa (judô) e Duda
e Ana Patrícia (vôlei de praia). O sucesso das mulheres também foi
importante no futebol, com a prata, na despedida de Marta, bronze no vôlei
de quadra, na última dança de Thaísa e o terceiro lugar de Rayssa
Leal no skate street. E ainda o segundo lugar de Tatiana Weston-
Webb, no surf.
Ficamos no quase, com Ana Marcela,
da natação, que terminou em quarto lugar na maratona aquática nas
águas poluídas do Rio Sena. Homens também chegaram perto, com Isaquias
Queiroz, na canoagem, c1 1000m, com a prata. Willian Lima, no
judô, categoria 6kg, quase chegou lá. E todos os outros atletas
brasileiros estiveram de parabéns, ao colocar o Brasil, com a segunda
marca na história em número total de medalhas, atrás apenas de Toquio 2020,
quando conquistamos 21 e na frente do Rio 2016, em que
conseguimos 19 medalhas.
Se analisarmos os últimos três ciclos,
demos um salto de qualidade, em relação a Pequim 2008 e Londres 2012,
com 17 pódios e Atlanta 1996 com 15 conquistas. Mas para
um país continental, como o nosso e de uma das maiores riquezas do Planeta,
estamos muito aquém do que poderíamos conquistar. Dos 60 atletas medalhistas 100
% eram integrantes do Bolsa Atleta, ou já participaram de editais
passados. Gabriel Medina participou de dois patrocínios, Larissa
Pimenta teve apoio por dez anos, Isaquias Queiroz, utilizou dos recursos
por 13 anos.
Os atuais medalhistas receberam do
governo federal durante sua trajetória cerca de R$ 24,4 milhões, com 398
bolsas concedidas. Rafaela Silva, com 15 editais, Caio Bonfim,
prata na marcha atlética com 14 editais e Rebeca Andrade, com 12,
são os que mais se destacaram. Nesse programa criado em 2005, pelo governo Lula,
buscou apoiar principalmente atletas de alto desempenho e a partir de 2012, com
a Lei 12.395/11, durante o governo Dilma, os atletas podiam
acumular outros patrocínios.
Além disso, alguns dos atletas
brasileiros em Paris, também pertenciam ao exército, como Alisson Santos,
sargento da Marinha, que ficou com a medalha de bronze nos 400
metros com barreiras. O Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR) criado
em 2008, pelo Ministério da Defesa, incorporando temporariamente
os atletas para participarem de competições nacionais e internacionais.
O Comite Olímpico Brasileiro
(COB) investiu cerca de R$ 700 milhões, com repasses da loteria esportiva.
Então porque com esse apoio todo, além dos patrocínios que cada atleta tem em suas
publicidades individuais, o nosso esporte olímpico ainda não é uma potência
mundial?
Fanatismo pelo futebol
Para mim a questão cultural do
brasileiro pesa muito, para a escolha do esporte a ser praticado. Nós a cada
quatro anos se apaixonamos pelas olimpíadas. Passamos horas intermináveis vibrando
a cada lance. Mas imediatamente após o fim da competição, voltamos o nosso
olhar fanatizado para o futebol de sempre. E quando digo futebol, falo do
masculino é claro. Cada um de nós volta para nosso clubismo, de primeira divisão,
segunda divisão no Brasileirão, ou corremos para assistir os campeonatos
de futebol pelo mundo, seja a Champions League, seja a Premier League,
ou MLS e Saudi Pro League.
Como uma criança, um adolescente,
vai ter desejo de praticar outras modalidades, se as mídias inviabilizam esses atletas,
seja do vôlei, da natação, do tênis, do atletismo? Não existe incentivo a
cobertura e quando mostra são de casos isolados.
Temos que pensar não só em programas
de transferências pecuniárias, que são algo paliativo, para ajudar na sobrevida
do atleta olímpico, mas precisamos de um planejamento, um projeto que mude a mentalidade
como um todo. Algo que integre escolas, faculdades, comunidades em geral.
Colocar o esporte, como alternativa, ao mercado de trabalho. É necessário também
combater as desigualdades sociais gritantes que fazem jovens se perderem na
criminalidade e não consigam ter um futuro melhor. Ou seja, mexer na macroestrutura
de poder e atrair o jovem da periferia para o esporte, dando eles a alternativa
que pode ser decisiva para ele escolher um caminho honesto para sua vida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário