Corrupção, fraudes
eleitorais, coligações fisiológicas, imprensa partidária, espionagem entre os
políticos, coronelismo e cabrestro eleitoral. Parece até que se está falando
dos tempos atuais, mas não, a biografia Getúlio, escrita pelo jornalista Lira
Neto e lançada pela editora Companhia das Letras em 2012 é o primeiro volume da
trilogia sobre o “maior” estadista que o Brasil já teve. Foram seis anos
pesquisando e escrevendo os três volumes.
O primeiro volume fala de um período que vai
desde 1882 a 1930, ”dos anos de formação a conquista do poder”. A narrativa
começa de uma forma bastante literária, nos colocando dentro do palco dos
primeiros meses do Getúlio no poder federal.
Mussolini na busca por estreitar os laços com
o novo estadista brasileiro manda uma missão trazer ao Brasil aviões das forças
aéreas italianas, que no final seriam trocados com Getúlio que mandou para
Itália em troca sacas de café que estariam se estragando nos depósitos nacionais,
como excedente de produção.
O autor após uma apresentação memorável das
primeiras festividades de Vargas, volta ao tempo e começa a contar a história
com rigor de detalhes. Filho do General Manuel Vargas membro do Partido
Republicano (e discípulo de Júlio de Castilhos) e de Cândida Francisca, o
garoto Vargas, fica marcado pelas disputas políticas entre o partido
republicano e os liberais (maragatos).
A história da infância seria do Umbuzeiro.
Quando nas brincadeiras com seu amiginho, Getúlio, derruba o quadro do
Presidente do Rio Grande do Sul, Julio de Castilhos. Enquanto o pai procurava
os garotos para “dar uma lição neles”. Getulinho propõe ficar com o garoto em
cima do Umbuzeiro, esperando pacientemente a raiva do pai virar, preocupação e
depois lamento, até enfim ele descer quando não havia mais perigo de
sofrimentos.
Essa prudência consegue-se observar na
leitura dos primeiros anos, quando na adolescência ele vai estudar em Ouro
Preto onde seus irmãos estão, metidos em confusão, coisa que faria parte de
toda vida de Vargas. Viriato Vargas seu irmão mais velho matou um jovem de
família importante e fugiu para São Borja terra natal da família.
Seria Viriato, anos mais tarde, quando já
intendente de São Borja, daria trabalho ao já advogado Getúlio Dorneles Vargas,
quando tem atitudes impudicas e é acusado de crimes. Antes, no entanto de
seguir a carreira jurídica, o jovem Getúlio já havia passado pelo quartel,
contra a vontade do pai e servido na Guerra entre Brasil x Bolívia pelo
território do Acre, quando ele escreve para um jornal de Porto Alegre contando
os maus tratos que os soldados passavam.
Enquanto é contada a história de Getúlio,
Lira Neto, também retrata o cenário político da época. Em que Júlio de
Castilhos morre e Borges de Medeiros começa um período que duraria mais de 25
anos no poder como Presidente do Rio Grande do Sul.
Por interesse de Borges de Medeiros, Manuel
Vargas deixa o cargo de intendente de São Borja, ficando em seu lugar seu filho
Viriato. O Presidente do Rio Grande do Sul usava a tática de enfraquecer os
governos municipais e enaltecer outros e depois fazer o inverso, deixando todos
debaixo do seu controle.
Getúlio que antes teria passado um tempo como
promotor estadual, é eleito deputado estadual, mas renuncia pouco tempo depois
para se dedicar as questões de São Borja. Quando Borges de Medeiros lhe oferece
o cargo de chefe de policia ele recusa.
Na vida particular Vargas é um pai que ler
para os filhos, enquanto sua mulher Darcy, cuida com rigidez das coisas
relacionadas ao lar. Na vida pública aprende as lições positivistas seguidas
pelo Borgismo-Castrismo, em que se concedem ganhos sociais aos trabalhadores,
seria a sua base futura como Presidente do Brasil.
Vivendo a revolta de 1923, quando Borges de
Medeiros ganha mais um mandato de Presidente do Rio Grande do Sul, à custa de
fraudes eleitorais, com ajuda do próprio Getúlio, o Estado vive uma crise
financeira e de contestação dos maragatos oposicionistas ao regime Republicano.
No meio disso, o agora Deputado Federal Getúlio,
é o articulador político de Borges de Medeiros num acordo que poria fim a
reeleição do chefe, abrindo espaço ao próprio deputado futuramente ao cargo. De
meses apenas ouvindo os colegas falarem até se tornar ume referência na
retórica, foi um passo mais uma vez segundo “o aprendizado do Umbuzeiro”, da
paciência até cansar os adversários.
Com uma imprensa envolvida politicamente com
a informação, Getúlio usaria como nunca o seu livre acesso ao planalto federal,
para minar a opinião pública de informações que fossem usadas sempre ao seu
favor de alguma forma. Não demorou muito para Assis Chateaubriand colocar seus
jornais para elogiar o deputado federal e fazer campanha para um cargo na nova
pasta que se formava no governo de Washington Luis.
Getúlio Dorneles Vargas seria o novo Ministro
da Fazenda, sem entender nada de economia, mas tudo de política. O próprio
Chatô contaria em seu artigo no jornal, defendendo o Ministro afirmando que ele
sabia de números, sim, pois foi por meio dele que conseguiu um empréstimo de
250 contos de reis do Banco do Brasil para financiar a sua nova empreitada, a
Revista O Cruzeiro. A tática seria pedir o dobro do valor (500 contos de reis)
e receber a metade que seria o próprio valor que ele necessitava.
Daí para ser indicado pelo próprio Presidente
da Republica para o Cargo de Presidente do Rio Grande do Sul, foi um pulo. Só
não sabia Washington, que Getúlio preparava uma armadilha ardilosa.
Até os maragatos, antes rivais da guerra de
1923, se tornam aliados temporários, pela renovação do Estado.
Lira Neto relembra que ao entregar os
originais da biografia de Padre Cícero para seu editor, ele foi indicado a
escrever algo mais leve depois, porém o escritor disse que gostava era de
encrenca grande. Pois já tinha escrito outras biografias, como “Os inimigos do
Rei” que conta a história de Jose de Alencar, “Castelo”, “Maysa”. Realmente
escrever sobre essas personalidades seria uma encrenca entanto, mas nada
comparável a escrever sobre Getúlio, odiado e amado por muitas pessoas.
Aliás, o autor contou em entrevista ao
programa da TV Brasil Conexão Roberto D’Ávila, que teve o apoio de jornalistas
e pesquisadores no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Europa e nos arquivos da
CIA nos EUA sobre o Ex-Presidente.
Natural de Fortaleza, Lira Neto, estudou
topografia no antigo CEFET, profissão que nunca exerceu depois se graduou em
Filosofia, Letras e Jornalismo pela UFC. Foi revisor do Diário do Nordeste,
Posteriormente no O Povo, foi repórter especial, de cultura e ombudsman.
Foi um dos principais nomes da poesia
marginal. Recebeu o prêmio jabuti de literatura como melhor biografia de
literatura do ano de 2007, com o livro, O Inimigo do Rei.
Foi com essa trajetória que Lira Neto pode
aprofundar todos os arquivos possíveis em torno deste chefe caudilho. Em 1929
Getúlio já costurava uma aliança com Minas Gerais para enfraquecer Júlio
Prestes candidato paulista a sucessão de Washington Luis.
Enquanto buscava colocar seu nome a
disposição Vargas unia em torno de si, um grupo de pessoas totalmente incompatíveis
nos seus ideais: Luis Carlos Prestes (Coluna Prestes), Assis Brasil e Estados
Estratégicos como Paraíba de onde tirou seu Vice-Presidente João Pessoa.
Ao mesmo tempo em que forma um bloco em busca
do poder, tentava negociar com o Presidente do Brasil um nome alternativo, ou
que o candidato do Catete pelo menos seguisse o programa da Aliança Liberal.
Como nos dias de hoje em que a imprensa se
usou do caso da “bolinha de papel” e “do aborto” para influenciar na eleição a
favor de José Serra em detrimento de Dilma Roussef. Na época de Vargas as
vésperas da eleição Presidencial os jornais pró-Catete se usavam de artifícios
de que Getúlio era agnóstico e contra a religião católica para influenciar nos
eleitores que na maioria eram devotos da Santa Fé.
Com a crise da bolsa de valores americana de
1929 e a queda das ações em torno da moeda americana, a principal mercadoria
brasileira, o café, entraria em crise, com preços baixos e muito estoque.
Atingindo a economia brasileira e colocando em risco o poder central. Nesse
momento entra o movimento revolucionário que tomaria o poder depois de
consecutivos conflitos espalhados pelo Brasil.
Lira Neto conta que começou a se interessar
por biografias quando fora chamado por Fernando Morais para ajudar em uma pesquisa
para uma biografia que o autor Mineiro estava escrevendo. Ai começou a escrever
suas próprias biografias. A primeira foi “O poder e a peste” sobre Rodolfo
Teófilo.
O autor cearense achava a redação de jornal
algo, muito efêmero e imediato, já as biografias são uma pauta que leva mais
tempo de estudo e pesquisa, o que o levou a desconstruir imagens que ficaram
cristalizadas em varias biografias sobre Getúlio.
Principalmente no caso em que Getúlio havia
sido acusado por Carlos Lacerda, de morte de um estudante chamado Caíto e que
na verdade segundo pesquisas de Lira Neto o autor do crime fora seu irmão
Viriato Vargas. Em outro caso que o autor desmitifica outra acusação do mesmo
Carlos Lacerda que teria acusado Getúlio de matar um índio, na verdade fora um
homônimo de Getúlio.
Para isso Lira Neto teve que passar uma
semana em Ouro Preto lendo na integra documentos históricos e se baseando em
fontes primarias. O autor conta que fora criticado pelos jornalistas que não
tinham nem chegado a ler seu livro e por isso, acreditava que depois do
lançamento do livro, era o momento para esclarecer possíveis duvidas.
Falando em relação à figura do Narrador das
suas obras, Lira conta tentar criar uma melodia própria para cada livro,
relacionada ao biografado.
Na sua vida cotidiana de trabalho, Lira Neto
afirma cumprir em casa um método como se estivesse em um local diferente.
Acorda de segunda a sexta, sempre por volta de 8 horas e meia e se arruma, toma
café se despede da mulher e das crianças e se tranca no escritório dentro de
casa, onde se fica 10 horas por dia trabalhando, menos fins de semana ao qual
afirma dedicar tempo somente à família.
Segundo
o site do autor: Veja Aqui a
segunda Obra da trilogia de Getúlio será lançada em agosto de 2013 e a terceira
parte em 2014.


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